O tempo passou, o sentimento mudou e
a vida recomeçou (mais feliz).
Inspirada pela reforma da cozinha
adquiri outros ingredientes e voltei a cozer letras, agora não para preencher o
“buraco no estômago”, mas para experimentar novos sabores e transbordar o
paladar da alma.
Provando um livro aqui outro ali,
escolhi os que me alimentam e iniciei o preparo de pratos diversos, cheia de
idéias e fome suficiente para devorar uma estante.
Passei os últimos dois meses devorando A Batalha do Apocalipse, do estreante Eduardo Spohr, que por sinal começou muito bem. Misturando ingredientes controversos como história, política, filosofia, religião e uma pitada de romance, o novo Chef conseguiu elaborar um prato encorpado, intenso, merecedor de uma degustação demorada, necessária para a apreciação de suas várias tramas, envoltas em misticismo, magia e batalhas. “Mas, com o tempo, ele foi entendendo que os eventos espirituais encontram reflexo no plano físico. Foi assim que, pela primeira vez, percebeu os sinais, os indícios que confirmavam os últimos dias da terra. Começou com aquilo que os profetas chamaram de ‘Cavaleiros do Apocalipse’. Não houve cavaleiro de fato, nem entidades montadas que personificassem a previsão. Mas o renegado podia percebê-los nas guerras (...), na fome (...), nas epidemias, (...) e em todo lugar onde a morte arrastava seu manto. Depois a situação mundial se degradou, e isso nada teve a ver com as forças infernais ou celestiais.” – Pág. 41 À mesa fantástica de Spohr encontram-se diferentes castas de anjos, demônios, magos e outras criaturas incríveis, entre eles os humanos, e sua especial essência. Ocupando lugares de honra, o renegado Ablon, a feiticeira Shamira, o Arcanjo Miguel, o misterioso Anjo Negro e o próprio Lúcifer, todos ansiosos pelo despertar do Criador, evento que determinará o dia do Juízo Final, a batalha que decidirá o destino da humanidade. “Mas isso tudo seria simplesmente mais uma guerra, não fossem os rasgos permanentes no tecido da realidade. Todos, anjos e demônios, sentiram que a membrana estava se desfazendo.” – Pág. 43 Mas até que finde o sétimo dia, e Yahweh acorde do sono que dura desde a criação do universo, acompanhamos Ablon e os demais em suas viagens pelo mundo, dos dias imemoráveis aos atuais, transitando entre o céu e o inferno, descobrindo dimensões singulares que parecem ter envolvido alquimia em seu preparo que, quase em banho-maria, os incorporou de maneira deliciosamente precisa, resultando em uma ficção de dar água na boca. Com uma linguagem formal e uma narrativa não-linear, o texto é entrecortado por flashbacks que contextualizam, ilustram e esclarecem, auxiliando-nos na digestão de acontecimentos quiméricos, servidos em porções generosas. Outros ingredientes que contribuem para a leitura são o glossário e a linha do tempo, servidos ao final da obra, embora fossem mais interessantes se acompanhados de um mapa. No prefácio vemos uma comparação entre A Batalha do Apocalipse e a obra de Tolkien, que mostrou-se justa, uma vez que o livro tem o poder de nos transportar para outro mundo, outro tempo, sentenciando-nos à angústia do retorno quando a leitura precisa ser interrompida. Pessoalmente, comparo-a ainda ao Código da Vinci e Anjos e Demônios, de Dan Brown, que juntam homogeneamente ingredientes reais e imaginários, fazendo-nos acreditar no impossível. Diferentemente da comparação literária, a gastronômica é única, não havendo melhor opção que um Filet de Boeuf Béarnaise: combinação desafiadora, ingredientes cuidadosamente reunidos, habilidade no preparo. Delicioso! Como acompanhamentos, um bom tinto, fresco e frutado, e Lullaby, com Loreena Mckennitt. Ah, e não se assuste se ao término da leitura você perceber as oscilações de energia como "rasgos no tecido da realidade"...
A receita usada por Scott Westerfeld em Perfeitos foi a mesma de Feios, mas no segundo prato alguma coisa desandou. Talvez por ele ter usado todo o ingrediente surpresa no prato anterior, ou então por querer manter o fogo alto quando o gás já estava acabando, mas o fato é que em PerfeitosWesterfeld errou a mão.
Tem um ditado que diz que a fome é o melhor tempero, mas nem a curiosidade para saber como seria a nova Tally realçou o sabor do texto, previsível e repetitivo.
No cardápio, a cidade de Nova Perfeição, festas intermináveis, uma Tally perfeita e rebelde, trajes impecáveis, muito champagne, ressacas monumentais, alguns novos amigos, doses moderadas de aventura e um enfumaçado que aparece para trazer à Tally pitadas de sua vida pregressa.
“Tally podia continuar maravilhosa – dona de uma estrutura óssea perfeita e uma pele impecável -, mas seu rosto revelava o caos de seu interior. Agora que tinha pensamentos estranhos aos perfeitos, não se manteria linda o tempo todo. Raiva, medo e ansiedade não combinavam com a perfeição.” – Pág. 148
Sempre borbulhante, a Srta. Tally revela seu lado “sou uma heroína sim, e daí”: reflete, fica na dúvida, se angustia, aí chora para em seguida ter a certeza de que pode mudar o mundo. Coisa de mulherzinha mesmo!
“Todas as pessoas eram programadas de acordo com o lugar em que nasciam, confinadas por suas crenças. Mas era preciso ao menos tentar desenvolver uma mentalidade própria. Do contrário, você podia acabar vivendo numa reserva, adorando um bando de deuses falsos.” – Pág. 319
Com relação à famosa operação, mais alguns segredos são revelados (isso também estava previsto), motivo pelo qual reencontramos a Dra. Cable e sua divisão, agora com um “biscoitinho da sorte” chamado Shay .
Enfim, Perfeitos não é tão saboroso quanto Feios, mas para não ser indelicada permaneci à mesa, fazendo cara de quem gostou. E se as sobremesas forem Especiais?
Tá, se a leitura serviu só para matar a curiosidade, que então seja acompanhada por um Cup Noodles, que só faz matar a fome. Combinação adequada que nos faz recordar a vidinha feia e feliz de Tally.
Quer tentar um gostinho a mais? Sirva-se ao som de Plastica. Tão, mas tão parecido com o livro...
Marian Keys me foi indicada duas vezes por pessoas com personalidades bem diferentes, mas parecidíssimas no quesito “pessoas que gostamos de graça”. Assim, aceitei de bom grado quando uma delas me emprestou um volume de É Agora...ou Nunca, que saboreei até a última página.
Com um texto leve, gostoso e engraçado, Marian Keyes aumenta nosso círculo de amigos ao nos apresentar à Tara, Katherine e Fintan, personagens principais cujas histórias estão ali, grudadinhas às nossas, assim como arroz de principiante.
No decorrer da leitura é inevitável nossa aproximação e identificação com os três, ao ponto de querer convidá-los para um jantarzinho íntimo e informal em casa. Se isso fosse possível, tenho certeza de que na noite do encontro o clima estaria agradável, a cozinha acolhedora, e durante a preparação coletiva do tradicional Roast Dinner Londrino, que acompanhado de verduras cozidas e batata assada traduz bem o gosto de intimidade de É Agora...ou Nunca, irreverência e descontração reinariam absolutas no ambiente.
Entre ingredientes, panelas e drinks, a conversa seguiria muito bem humorada, regada a deliciosas gargalhadas e muita diversão, principalmente com as observações de Tara:
“(...) Se você olhar para a foto que está no meu passaporte, que foi tirada a nove anos atrás, vai notar que minha boca estava quase na testa. Em compensação, agora meus olhos estão totalmente caídos, batendo lá no queixo... ´Qual queixo?’, vocês estão pensando... e as minhas têmporas estão quase na altura da minha cintura.” – Página 22
Enquanto o assado estivesse no forno, nos acomodaríamos em confortáveis poltronas para aguardar o jantar, satirizando-nos mutuamente, trocando conselhos, redefinindo a vida e curtindo o aconchego da amizade.
“(...) Ele trabalhava na Breen Helmsford há três semanas. Em outros empregos isso queria dizer que ainda estava começando, na área de propaganda, porém, esse período tinha o peso de três anos. (...) era o tempo suficiente para conseguir um cliente importante, ser promovido duas vezes, publicar um artigo na revista Campanha, ser pego na cama com a mulher do diretor geral, perder o cliente importante e ser despedido.” – Página 87
Mesa posta, degustaríamos o prato e o papo, alternando freneticamente os assuntos que eventualmente seriam cortados por questionamentos, que nem todos podem fazer, e momentos de silêncio, que só os verdadeiros amigos sabem dividir.
“(...) Sua época com Alasdair parecia uma campina verdejante banhada por um sol glorioso, enquanto o lugar onde estava agora parecia envolto por uma nuvem negra. Tudo bem que ele dera no pé e se casara com a primeira vadia que apareceu, mas eles tinham curtido um paraíso, não tinham?” - Página 358
Alguém se levantaria, iria até a cozinha e serviria a sobremesa, anunciando assim o término do jantar, o que não significaria, entretanto, o fim de nada. As despedidas aconteceriam, os abraços seriam trocados, a noite findaria e permaneceria no ar a certeza de que a amizade é um tempero essencial à vida.
“(...) O Ravi que é três anos mais novo que eu? O Ravi que fica acordado a noite inteira jogando videogame? O Ravi que pensou que Duro de Matar era um documentário? Esse Ravi? Ele está muito bem.” - Página 501
Mesmo depois que a última luz se apagasse na residência, os vizinhos ainda poderiam escutar as notas de In My Life, The Beatles.
Ah, e cla-ro que o próximo encontro ficaria agendado, com a certeza de que o cardápio seria à base de Melancia.