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16 de maio de 2011

PERFEITOS



A receita usada por Scott Westerfeld em Perfeitos foi a mesma de Feios, mas no segundo prato alguma coisa desandou. Talvez por ele ter usado todo o ingrediente surpresa no prato anterior, ou então por querer manter o fogo alto quando o gás já estava acabando, mas o fato é que em Perfeitos Westerfeld errou a mão.

Tem um ditado que diz que a fome é o melhor tempero, mas nem a curiosidade para saber como seria a nova Tally realçou o sabor do texto, previsível e repetitivo.

No cardápio, a cidade de Nova Perfeição, festas intermináveis, uma Tally perfeita e rebelde, trajes impecáveis, muito champagne, ressacas monumentais, alguns novos amigos, doses moderadas de aventura e um enfumaçado que aparece para trazer à Tally pitadas de sua vida pregressa.

“Tally podia continuar maravilhosa – dona de uma estrutura óssea perfeita e uma pele impecável -, mas seu rosto revelava o caos de seu interior. Agora que tinha pensamentos estranhos aos perfeitos, não se manteria linda o tempo todo. Raiva, medo e ansiedade não combinavam com a perfeição.”Pág. 148

Sempre borbulhante, a Srta. Tally revela seu lado “sou uma heroína sim, e daí”: reflete, fica na dúvida, se angustia, aí chora para em seguida ter a certeza de que pode mudar o mundo. Coisa de mulherzinha mesmo!

“Todas as pessoas eram programadas de acordo com o lugar em que nasciam, confinadas por suas crenças. Mas era preciso ao menos tentar desenvolver uma mentalidade própria. Do contrário, você podia acabar vivendo numa reserva, adorando um bando de deuses falsos.”Pág. 319

Com relação à famosa operação, mais alguns segredos são revelados (isso também estava previsto), motivo pelo qual reencontramos a Dra. Cable e sua divisão, agora com um “biscoitinho da sorte” chamado Shay .

Enfim, Perfeitos não é tão saboroso quanto Feios, mas para não ser indelicada permaneci à mesa, fazendo cara de quem gostou. E se as sobremesas forem  Especiais?

Tá, se a leitura serviu só para matar a curiosidade, que então seja acompanhada por um Cup Noodles, que só faz matar a fome. Combinação adequada que nos faz recordar a vidinha feia e feliz de Tally.

Quer tentar um gostinho a mais? Sirva-se ao som de Plastica. Tão, mas tão parecido com o livro...

30 de setembro de 2010

FEIOS



Como seria o mundo se todos nós, na adolescência, o ápice do período da aceitação, fôssemos submetidos a uma cirurgia para nos tornarmos belos e perfeitos? E se, a partir daí, nossa vida fosse repleta de diversão, festas e muito glamour?

Esse é o cardápio de Feios, que com um ritmo frenético e juvenil vai página a página servindo-nos a história de Tally Youngblood, uma jovenzinha que vive ansiosa à espera do momento em que finalmente se tornará perfeita com a cirurgia, presente-obrigatório do governo e passaporte que lhe possibilitará viver em uma das torres iluminadas e borbulhantes da cidade de Nova Perfeição, tendo como única preocupação divertir-se com o luxo e a badalação que só a beleza pode proporcionar.

Mas como nada é simples na vida de um adolescente, também nos servimos dos conflitos internos da protagonista.

Tratando questões como diversidade, personalidade, individualidade e estética, tendo a beleza como parâmetro definitivo, Scott Westerfeld “corrige” a “injusta” convivência entre belos e feios transformando todos em perfeitos, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o que está do outro lado do espelho, e que não é nada bonito: o preço a ser pago para enquadrar-se aos padrões.

“Claro. Até parece que as coisas eram maravilhosas quando todo mundo era feio. (...) Todo mundo julgava todo mundo pela aparência. As pessoas mais altas conseguiam empregos melhores, e o povo votava em certos políticos só porque eles não eram tão feios quanto a maioria. (...) E as pessoas se matavam por coisas como uma cor de pele diferente. (...) Então, qual é o problema de as pessoas serem mais parecidas agora? É o único jeito de tornar as pessoas iguais.”Página 47

“Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem ‘quem é ela?’ e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.”
Página 94

“(...) E agora todos são felizes, porque todos são iguais. Todos são perfeitos. (...) Talvez as guerras e todas as outras coisas tenham acabado simplesmente porque não há mais controvérsias, discordâncias ou pessoas reivindicando mudanças. Apenas massas de perfeitos sorridentes. E algumas outras pessoas que controlam tudo.”
Página 260

O gosto da obra futurista e escapista de Westerfeld assemelha-se muito ao paladar de Amendoins Japoneses, que ingeridos despretensiosamente levam-nos a acabar com uma porção e imediatamente pedir a próxima, nesse caso, os próximos da série: Perfeitos, Especiais e Extras.

Para embalar a leitura de Feios, que figurou na lista de Best Sellers do The New Yourk Times, Vanity, de Lady Gaga, porque com certeza é "isso" que toca nas torres de Nova Perfeição.