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8 de outubro de 2010

A DISCIPLINA DO AMOR



Dá gosto saborear as iguarias que Lygia Fagundes Telles nos oferece nessa obra, irresistivelmente bem temperada com sua delicadeza, elegância e intensidade.

Composto por fragmentos do cotidiano, observações de viagens, reflexões filosóficas e apontamentos psicanalíticos, A Disciplina do Amor leva-nos a acreditar que saboreamos o próprio diário da autora, com relatos que, implicitamente, cozem um verdadeiro banquete de amor e vida.

“(...) que duro o julgamento desse próximo, medida de todas as coisas. Tão atento o nosso próximo. Atento e desatento: condena, absolve, aconselha, desaconselha e depois vai tomar chope, esquece. O objeto do julgamento – o réu – levando tudo tão a sério, fazendo e desfazendo. E o outro, como no poema, tirando ouro do nariz.”Senso de Humor, pág. 19

“(...) Tão difícil a vida e seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo. Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos de sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E por acaso é com o analista que se comenta o filme na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho, esse gosto meio frisante, hen?”29 de Janeiro, pág. 24

“(...) ninguém morre. É que os mortos são discretos. Tão silenciosos. Os braços de éter, a voz de aragem. Habituada ao mundo visível, você se desespera com a aparente ausência, quer tocá-la e não atinge.”Fragmentos da Carta à Mãe em Prantos, pág. 50

“Para a Sibéria deveriam ser mandados os narcisos em delírio num pequeno estágio de humildade. Os ventos passam, os homens passam e ninguém sabe.”A Mulher de Omsk, pág. 55

Entre lembranças, fantasias, contos e inquietudes, desfrutamos à indispensável mesa de Lygia de seu real e imaginário, que aconchega, conduzindo-nos à introspecção, assim como o Caldo de Frango, servido quente, em noite solitária, ao som da clássica Canon, de Pachelbel.