Leves e divertidas, eis minhas definições para as obras de Fernando Sabino.
Penso que Fernando (nossa mineiridade faz com que eu o trate assim), tal qual uma Salada de Folhas Verdes com Queijo de Cabra ao Molho Mostarda e Maracujá, tem o propósito de nos proporcionar experiências distintas para sabores do cotidiano, ressaltados e transformados pela combinação de ingredientes.
Tomei conhecimento do autor na minha infância, enquanto saciava meu apetite na estante de um tio. Lembro-me que àquela época o que despertou minha atenção foi ler sobre fatos ocorridos, ou não, em lugares por mim conhecidos. E só!
Com o passar do tempo a experiência foi ajudando-me a compreendê-lo, a apreciá-lo, até o ponto de transformá-lo em um dos meus queridinhos. De tanto ler Fernando, hoje ele me acompanha da cabeceira para a mesa, e vice versa.
Como uma boa salada, é possível saborear Fernando sem que ele se torne enjoativo. Alguns podem julgá-lo frugal, mas percebo essa característica com o paladar: sempre repetimos um prato gostoso e moderado, tal qual A Volta Por Cima, livro de contos, crônicas e histórias em que o autor escreve sobre assuntos como música, amor, morte, roubo, anatomia e outros mais.
Considerado um maître, quer dizer, mestre no gênero, trata episódios, incidentes, reflexões, encontros e desencontros com tamanha excelência que pode ser comparado ao melhor dos chefs, cozinhando idéias e palavras, compondo uma saborosa salada literária.
Prove algumas porções de A Volta Por Cima:
“Chegava tarde da noite, aborrecido, trazendo da rua uma daquelas contrariedades da juventude,e, em vez de ir chorar na cama que é lugar quente, descia o braço na bateria. Era a minha desforra. Sem aprender a tocar, e apenas tendo certo jeito, me esbaldava em toda forma de barulho a que chamava ritmo. Meu pai surgia de pijama à porta: ‘ A essa hora não, meu filho. Tenha Paciência’. Paciência tinha ele, que não me botava na rua com bateria e tudo.” – A Alma da Música
“Para ver melhor, Carlinhos se aproximou da cama, chegou a cara bem perto do rosto da velha, examinou as mãos cruzadas sobre o peito: Você não falou que quando a gente morre vai para o céu? Por que ela ainda não foi?” – Vovó Vai Voando
“O avião fez que ia, não ia, balançou um pouco no ar, tirou um fino na copa das árvores ao fim da pista, acabou indo. Compúnhamos um grupo grotesco, apertado ali dentro – se o avião caísse, teríamos que ser enterrados com ele, numa cova coletiva.” – A Volta Por Cima
“Tinha que entender aquele complicado cerimonial mineiro (...). A primeira vez ele recusou por educação. A segunda, para ver se eu não estava convidando também por educação. A terceira, porque não sabia se havia comida que desse para ele. A quarta, finalmente, ele estava aceitando, mas não ficava bem dizer sim depois de ter dito três vezes não.” – A Arte de Dizer Não
Para acompanhar a leitura, Blue Skies, com ela, Ella Fitzgerald. Porque ele gostava dela... E quem não?
