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22 de julho de 2010

A CABANA



O gosto de A Cabana, de William P. Young, surpreende os que pretendem degustar um livro fundamentado na visão cristã tradicional com ingredientes bastante peculiares. A surpresa é ainda maior se o leitor for um defensor enfático da igreja e seus dogmas; para esses o prato pode ser indigesto.

Com seu final já explicitado no prefácio, o inesperado do livro fica por conta do encontro do protagonista com a Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, descritos de forma inusitada, com quem estabelece diálogos durante refeições capazes de deslustrar a Santa Ceia.

As conversas, discussões e questionamentos, principais ingredientes do prato, têm o claro objetivo de aconselhar, inspirar e consolar, o que deixa A Cabana na fronteira com a auto-ajuda, sendo separada desta pela utilização da reflexão no lugar da receita, uma sutil e honrada distância.

Salpicado por metáforas, o livro destitui Deus de seu lugar de senhor absoluto apresentando sua condição humana, abrandando desta forma o abismo estabelecido entre Ele e sua criação. A dimensão do relacionamento com Abba coalha os condicionamentos religiosos, enfraquecendo seus clichês e estereótipos, aproximando-nos de um Deus vivo.

Após saborear A Cabana, estabelecer um único gosto seria até herético, pois suas possibilidades são do tamanho da fome e da fé daquele que se senta à mesa para apreciá-lo. Assim, sugiro um banquete como seu paralelo, no qual o leitor determinará seu próprio gostar, ou não.

“Há ocasiões em que optamos por acreditar em algo que normalmente seria considerado absolutamente irracional. Isso não significa que seja mesmo irracional, mas certamente não é racional. Talvez exista a supra-racionalidade: a razão além das definições normais dos fatos ou da lógica baseada em dados. Algo que só faz sentido se você puder ver uma imagem maior da realidade. Talvez seja aí que a fé se encaixa.”Pág. 61

“O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como a que agora presumia que Jesus também tinha nos dele.”Pág. 86

“Presenciar a expressão de tamanho amor parecia deslocar qualquer entrave lógico e, ainda que ele não soubesse exatamente o que sentia, era muito bom. Estava testemunhando algo simples, caloroso, íntimo e verdadeiro. Isso era sagrado.”Pág. 98

“(...) falando de modo simples, religião, política e economia são ferramentas terríveis que muitos usam para sustentar suas ilusões de segurança e controle.”Pág. 166

“Se você puser Deus no topo, o que isso realmente significa? Quanto tempo você me dá antes de poder cuidar do resto do seu dia, da parte que lhe interessa muitíssimo mais?”Pág. 193

Reforce o sabor da refeição ouvindo Breathe, de Michael W. Smith.