
Composta por sete histórias, a série As Crônicas de Nárnia nos faz voltar à época dos contos de fadas, intercalando personagens de nossa infância com elementos de nossas crenças, o que torna este livro um volume a ser eternizado, passado de geração em geração como uma boa receita de família.
Constituem o volume único: O Sobrinho do Mago; O Leão, a Feiticeira e o Guarda- Roupa; O Cavalo e Seu Menino; Príncipe Caspian; A Viagem do Peregrino da Alvorada; A Cadeira de Prata; A Última Batalha.
Envolvente e marcante, o mundo encantado criado por C.S. Lewis subsiste paralelo ao nosso, e é habitado por figuras mitológicas e lendárias, tendo como personagem principal o Leão Aslam, responsável pela composição de contextos magníficos nas aventuras e batalhas entre o bem e o mal.
A narrativa de Lewis é capaz de nos conduzir para dentro dos contos, despertando emoções e questionamentos que dão um sabor todo especial ao livro, que apresenta um claro embasamento cristão, reflexo do protestantismo do autor.
Essa característica é pontuada em vários trechos, como por exemplo na cronologia daquela terra, cujo conceito de temporalidade foi adaptado da Bíblia: “(...) para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.” – 2 Pedro 3:8. A geografia de Nárnia também retrata a fé de Lewis, que a descreve banhada por um oceano que finda no País de Aslam, sendo esta uma forte menção ao Céu.
O gosto deste volume faz com que não queiramos degustar suas 751 páginas, mas saboreá-las com avidez, entretanto demoradamente, para que seu paladar e essência sejam sentidos e apreendidos.
Como um Boeuf Bourguignon, Nárnia é um livro simples e ao mesmo tempo surpreendente, cujo desfecho objetivo causa-nos admiração e nos faz lamber os dedos.
A preparação de um Boeuf Bourguignon requer apenas paciência, dispensando conhecimentos mais aprofundados de culinária. Da mesma forma, Nárnia exige de seu leitor apenas disposição de espírito, já que o conhecimento de seu pano de fundo pode ser adquirido no decorrer da leitura.
Vários são os trechos que gostaria de transcrever aqui, mas registro o que me traduziu o gosto do livro:
“Eu sabia que tinha de fazer o que me dizia, porque me levantei e o segui. (...) Nunca tinha visto água tão clara e achei que se me banhasse ali talvez passasse a dor na pata. Mas o leão disse para tirar a roupa primeiro. (...) Ia responder que não tinha roupa, quando me lembrei que os dragões são, de certo modo, parecidos com as serpentes, e estas largam a pele. ‘Sem dúvida é o que ele quer’, pensei. Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pela toda, inteirinha, como depois de uma doença (...). Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. (...) Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: ‘Deus do céu! Quantas peles terei de despir?’. (...) Esfreguei-me pela terceira vez e tirei a terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse: ‘Eu tiro a sua pele’. (...) E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói para valer, mas é bom ver o espinho sair. (...) Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado(...). Nessa altura agarrou-me (...) e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor no braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. (...) Depois de certo tempo, o leão me tirou da água e vestiu-me. (...) me vestiu com uma roupa nova.” – A Viagem do Peregrino da Alvorada
Saboreie-o, demoradamente, ao som de The Call, com Regina Spektor.
Harmonização de prato, letra e alma.