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15 de fevereiro de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA




Ao selecionar ingredientes como uma menina de tranças, um jovem poeta amante de música, um médico “bom partido”, cartas secretas e paixão Gabriel García Márquez poderia ter preparado um belo melodrama, mas o que ele serviu foi um banquete de sentimentos que satisfaz paladares exigentes.

Considerado seu romance mais notável, O Amor nos Tempos do Cólera conta a historia do triangulo amoroso composto por Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino,  personagens marcantes de uma narrativa que decorre cinquenta e três anos, quatro meses e onze dias. Ambientado no Caribe do Século XIX, tem como pano de fundo o Cólera, a Guerra Civil e outras questões sociais, apresentadas de forma intensa e emocionante.

Baseada na vida de seus pais, a obra de Márquez traz questões diversas acerca de relacionamentos estabelecidos em uma sociedade marcada por convenções e preconceitos, salientando nuances dos arroubos juvenis à serenidade da velhice, alcançando núcleos e personagens distintos, não se limitando ao trio.

Redigido com sutileza, ingênua sensualidade e humor requintado, o texto é salpicado com detalhes que temperaram de forma envolvente, resgatando sentimentos já recolhidos, conferindo-lhes novos cheiros e gostos, permitindo que avaliemos os limites que infligimos às próprias emoções.

“Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele tomava banho, e apesar das discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobrava da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças (...).” – Pág. 259

Reserve a melhor poltrona, programe A Morte e a Donzela de Schubert em um volume agradável para harmonizar com Bruschettas de Berinjela e deleite-se: sabor, dramaticidade e elegância na medida desta história de amores, sabores e musicalidade.

7 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES




"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. (...) Nunca sucumbi a esta nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia (...)." - Pág. 7

Com este aperitivo Gabriel Garcia Márquez convida-nos a degustar Memória de Minhas Putas Tristes, uma das obras mais belas que já li, não sem antes julgá-la, precoce e estupidamente, clichê.

Para além da cama ou outro elemento sugerido pelo título, o livro é uma doce poesia sobre o amor, o envelhecer e a solidão, ingredientes que temperam o prato de todos nós.  Seu texto gracioso e inteligente suaviza o contexto indigesto, ao mesmo tempo em que ressalta o sabor da vida, suas virtudes e possibilidades.

"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê." - Pág. 109

O protagonista centenário, cronista no jornal de domingo e professor de gramática, surpreende pela elegância e intensidade com que nos serve suas emoções e desassossegos, descobrindo que morrer de amor significa bem mais que uma licença poética. Talvez pelo ridículo ao qual o amor nos expõe, passou a vida relacionando-se com “mulheres descartáveis", percebendo o sentimento e sua humanidade ao pousar os olhos em Delgadina, a ninfeta adormecida, seu presente nu. 

"Foi algo novo pra mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor (...). Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angustias do desejo (...)." - Pág. 35

O gosto desse primor de Márquez pode ser encontrado em uma Oblea com Doce de Amora, o feminino de amor. Delicado, agridoce e saborosamente afetuoso.

Seu ritmo compreendido em Solamente Una Vez, na voz de Augustín Lara, a predileta do protagonista, pois há quem diga que o amor acontece somente uma vez.