Ele não foi o primeiro, mas sem dúvida foi o mais marcante.
Mineiro, teólogo, filósofo, psicanalista, professor, amante de jardins e culinária.
Mineiro, teólogo, filósofo, psicanalista, professor, amante de jardins e culinária.
Nosso relacionamento teve início nos anos 90, quando uma professora parafraseou-o em uma de suas aulas afirmando que o “saber tinha sabor”.
Inquieta pelo efeito daquela frase em mim, saí à procura do autor.
Eu era uma jovem universitária, repleta de sonhos e planos, ansiosa pelas possibilidades que poderiam ocorrer à partir daquele encontro. Ele homem maduro e experiente, que embora muito disponível não me pareceu surpreso ou curioso ao me ver.
Nosso olhar se cruzou entre livros e silêncio. Eu de pé, frente a estante, ele empilhado na terceira prateleira.
Convidei-o para um almoço no restaurante acadêmico, onde ganhei beijos que transcrevo aqui:
“A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rostos (ou será apenas uma voz, ou uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...) que sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que este rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece.” – A Cena
Mesmo faminta, não comi. Foi então que percebi que minha fome era outra; minha fome era conhecer mais daquele que eu segurava fortemente em minhas mãos, e que cuidadosamente acariciava meu espírito:
“O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio...”. – Cartas de Amor
Estava apaixonada!
Foi assim que conheci e me encantei por Rubem Alves, lendo O Retorno e Terno, cujas crônicas que o compõem foram inicialmente publicas no jornal Correio Popular.
Desde então ele sempre me acompanha, seja em manhãs preguiçosas de sol, regadas a sucos de frutas, seja em noites frias, na companhia de caldos e sopas.
Sim, sucos, caldos e sopas, estes são meus paralelos gastronômicos para Rubem Alves.
Os diversos temas pontuados em suas obras misturam-se delicadamente, saborosamente, formando caldos literários de encher os olhos e dar água na boca.
O Retorno e Terno é para ser lido assim, com acompanhamentos leves, pois só eles combinam com seu texto de fácil e gostosa digestão.
Leia ouvindo Air on a G String, de Bach. Belíssima combinação!
