Filandras, de Adélia Prado, é um típico Chá Feminino Interiorano, reunindo comadres em volta de uma mesa de quitutes de modo que possam prosear vagarosamente sobre suas vidas provincianas.
As mulheres convidadas por Adélia para este encontro possuem cotidiano trivial e previsível, passado em meio à religiosidade, desejo, submissão, sonho, amor, envelhecimento e frustração, pratos que não se tornam enjoativos devido ao tempero da autora, uma mistura de complexidade e ironia.
Com nuances deliciosas, seus 43 contos apresentam monólogos suculentos, unidos por tênues e saborosos fios, filandras que ligam seus personagens e histórias.
Já a sutileza e concisão da narrativa funcionam como pedrinhas de açúcar no chá, adoçando a vida de mulheres indigestamente reais.
“O homeopata – será que escarnecendo de mim? – falou: olha, dona Afonsa, nada de hormônios, envelhecer é isto mesmo, a gente vai se mineralizando, chegou a dizer o que – no pensamento dele – é de uma lógica brutal, que a osteoporose é sinal de progressiva espiritualização. (...) ‘Tú és pó e em pó te tornarás’.” – Feminina, pág. 09
“Falo assim: meu Deus, eis-me aqui, dá um jeito do Franz aparecer em nossa casa, enquanto o Miguel estiver viajando. Percebo – ai que nojo, percebo demais – que disse ‘eis-me’ e depois ‘dá’ no lugar de daí, mas não é desrespeito, é fluxo de sentimento que não tolera preocupação com a gramática (...).” – Luz em Resistência, pág 17
“Agora, daquela do escritório eu tive, medo não por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina , agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs.”- O Desbunde, pág, 52
“Tá fazendo o quê aí? Abriram um boteco novo ali em frente, ela disse, coisa de uma semana. Hoje é sexta, já são oito e trinta e até agora só entrou um freguês, mesmo assim pegou coisa pouca e saiu, coitado do boteco!” – Os Piedosos, pág. 115
“Verdura, só alface refogada, não agüento coisa fria. Ovo, queijo, carne gorda, farinha e muita pimenta. Eita ferro! Doutor falou que tenho cintura é por milagre. E sabe do que mais? Quando falou isso deu desculpa de me apalpar, sei não, achei ele meio desacadêmico.” – Polífona, pág. 137
“Não que eu saiba algum segredo pra lhe salvar a vida, quem sou eu, não agüento a gata pelo rabo, imagine, mas tenho preguiça de conversar com pessoas que têm horror a respostas e só tiram prazer cutucando a vida com prudência e pequenos beliscões.” – Enjoamento, pág. 143
A musicalidade do chá fica por conta de Brejeiro, Yamandú Costa.
