Definitivamente, esse exemplar não é para quem gosta de pratos adocicados, marcados por finais felizes. Sim, porque todos os personagens de seus 12 contos estão condenados ao fracasso, em toda e qualquer perspectiva.
Também não é para quem julga o prato pela aparência, ou o livro pela capa, visto que nesta temos uma visão turva e desfocada de nós mesmos, o que pode predizer um encontro com nossa própria natureza, ao mesmo tempo nobre e miserável.
Salpicado por elementos cotidianos que normalmente estão escondidos na despensa, Antinarciso é para ser degustado em um dia fresco e em prato fundo, isso para que o calor não nos consuma e para que não se derrame à mesa porções de relações mal sucedidas, infâncias infelizes, frustrações ou crises existenciais.
Saborear essa verdadeira Rabada, absorvendo seus personagens que parecem não se importar com suas realidades e destinos, exige-nos certa complacência; caso contrário, corremos o risco da deselegância, transformando uma boa e bem-humorada conversa de almoço em sessão terapêutica, tentando salvá-los (salvarmo-nos) de um mundo narcisista, destituído de sentido, com escassa possibilidade de felicidade.
O prato é gordo, e para nos ajudar a finalizá-lo Mário Sabino utiliza linguagem contemporânea, clara e concisa, como a descrita abaixo, o que nos serve de antiácido e alivia a indisposição causada por um ou outro ingrediente mais picante:
“- Bom, tive a idéia de revê-la ao examinar um álbum antigo.
- Você tem uma foto minha?
- Não, é que nesse álbum havia umas fotos de quando eu tinha nove anos, a época em que fui apaixonado por você.
- Você faz o quê?
- Sou médico. E você?
- Prostituta.” – Suzana, pág. 99
Leia se balançando ao som de Marlene Kuntz, La Lira Di Narciso.
