19 de fevereiro de 2013

QUARTO



Jack é um simpático garotinho que acabou de completar 5 anos, ganhando da Mãe  um desenho feito por ela enquanto ele dormia no Quarto. Além de dormirem, ele e a Mãe fazem muitas coisas no Quarto. Na verdade, lá eles fazem tudo, pois é onde vivem. Às vezes Jack passa um tempo no Guada-Roupa, sempre que o velho Nick visita a Mãe, ficando quietinho até a Cama parar de ranger.

Diferente da Mãe que veio do Lá Fora, Jack nasceu e cresceu no Quarto, seu universo de brincadeiras, desenhos, aprendizados, e, fundamentalmente, de amor. O amor que fez a Mãe transformar aquele pequeno espaço em um mundo inteirinho para dois, mas que agora ficou bem apertado, apertado o suficiente para que saiam de lá.

Narrado na doce e pura voz de Jack, esta obra saborosa de Emma Donoghue é uma experiência literária assustadoramente real, exprimindo com inocência impressões de uma vida originada no isolamento. Os diálogos estabelecidos entre mãe e filho são de uma ingenuidade comovente, o que torna o contexto ainda mais perverso.

 “Ouvir” Jack falar de sua mãe é perturbador, pois a ternura da relação por ela conduzida em circunstâncias tão devastadoras desnudam nossa visão para os horrores indigestos do cotidiano, horrores para os quais fechamos os olhos na expectativa de que simplesmente desapareçam de nossas mesas.

“A mãe se levantou pra fazer xixi, mas sem falar, com o rosto todo vazio.” – Pág. 75

Os elementos usados pela autora na composição deste prato perdem sua essência acre através do discurso de Jack, que parece estar ao nosso lado durante toda a leitura, observando nossas reações e dizendo “nem vem, neném”.

Minha degustação do texto foi angustiante, e por todas as páginas quis proporcionar para mãe e filho uma bela refeição ao ar livre. Também desejei para eles as mais sublimes melodias, mas nada seria tão especial quanto o som de pássaros na liberdade de um céu azul.

Experimente o memorável sabor do Quarto

15 de fevereiro de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA




Ao selecionar ingredientes como uma menina de tranças, um jovem poeta amante de música, um médico “bom partido”, cartas secretas e paixão Gabriel García Márquez poderia ter preparado um belo melodrama, mas o que ele serviu foi um banquete de sentimentos que satisfaz paladares exigentes.

Considerado seu romance mais notável, O Amor nos Tempos do Cólera conta a historia do triangulo amoroso composto por Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino,  personagens marcantes de uma narrativa que decorre cinquenta e três anos, quatro meses e onze dias. Ambientado no Caribe do Século XIX, tem como pano de fundo o Cólera, a Guerra Civil e outras questões sociais, apresentadas de forma intensa e emocionante.

Baseada na vida de seus pais, a obra de Márquez traz questões diversas acerca de relacionamentos estabelecidos em uma sociedade marcada por convenções e preconceitos, salientando nuances dos arroubos juvenis à serenidade da velhice, alcançando núcleos e personagens distintos, não se limitando ao trio.

Redigido com sutileza, ingênua sensualidade e humor requintado, o texto é salpicado com detalhes que temperaram de forma envolvente, resgatando sentimentos já recolhidos, conferindo-lhes novos cheiros e gostos, permitindo que avaliemos os limites que infligimos às próprias emoções.

“Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele tomava banho, e apesar das discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobrava da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças (...).” – Pág. 259

Reserve a melhor poltrona, programe A Morte e a Donzela de Schubert em um volume agradável para harmonizar com Bruschettas de Berinjela e deleite-se: sabor, dramaticidade e elegância na medida desta história de amores, sabores e musicalidade.

7 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES




"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. (...) Nunca sucumbi a esta nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia (...)." - Pág. 7

Com este aperitivo Gabriel Garcia Márquez convida-nos a degustar Memória de Minhas Putas Tristes, uma das obras mais belas que já li, não sem antes julgá-la, precoce e estupidamente, clichê.

Para além da cama ou outro elemento sugerido pelo título, o livro é uma doce poesia sobre o amor, o envelhecer e a solidão, ingredientes que temperam o prato de todos nós.  Seu texto gracioso e inteligente suaviza o contexto indigesto, ao mesmo tempo em que ressalta o sabor da vida, suas virtudes e possibilidades.

"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê." - Pág. 109

O protagonista centenário, cronista no jornal de domingo e professor de gramática, surpreende pela elegância e intensidade com que nos serve suas emoções e desassossegos, descobrindo que morrer de amor significa bem mais que uma licença poética. Talvez pelo ridículo ao qual o amor nos expõe, passou a vida relacionando-se com “mulheres descartáveis", percebendo o sentimento e sua humanidade ao pousar os olhos em Delgadina, a ninfeta adormecida, seu presente nu. 

"Foi algo novo pra mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor (...). Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angustias do desejo (...)." - Pág. 35

O gosto desse primor de Márquez pode ser encontrado em uma Oblea com Doce de Amora, o feminino de amor. Delicado, agridoce e saborosamente afetuoso.

Seu ritmo compreendido em Solamente Una Vez, na voz de Augustín Lara, a predileta do protagonista, pois há quem diga que o amor acontece somente uma vez.

19 de setembro de 2012

TODA MAFALDA


Ela é uma garotinha de 6 anos  que vai à escola, brinca com os amigos, dança ao som de Beatles, desafia os pais, questiona e escolhe o que quer comer. Odeia a injustiça, as guerras, o racismo e todas as outras invenções dos adultos, defendendo veementemente os direitos humanos e a paz . Bom, não fossem alguns ingredientes, ela seria uma garotinha como outra qualquer...

 Mafalda, a enfant terrible, veio ao mundo na década de 60 pelas mãos de Quino, cartunista argentino que nos serviu seu humor inteligente, sutil, atemporal e reflexivo por meio dessa adorável contestadora. Na década de 70, com a mesma perspicácia com que a criou, ele a retirou da mesa para não enfadar nosso paladar. Segundo o autor, ele estava tornando-se repetitivo.

Em Toda Mafalda temos compiladas as tirinhas cozidas nesses dez anos de trabalho, nas quais Quino nos apresenta uma consciência infantil, divertida e ácida acerca da família, da sociedade, da política, das relações humanas e da internacionalização, aguçando nosso senso crítico.


A obra também traz informações interessantes sobre o processo de criação de Mafalda e sobre seu autor, além de opiniões como a de Umberto Eco: “Já que nossos filhos vão se tornar, por escolha nossa, outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real.”

Rejeitando o mundo como ele é, com o mesmo rigor com que rejeita um prato de sopa, Mafalda e os demais personagens de Quino nos divertem e nos mostram que a insatisfação com uma realidade desarrazoada não é coisa só para adultos.


Para acompanhar a leitura, Caramelos Artesanais. Assim como nossa Mafalda, é autêntico, azedinho, divertido e gruda na gente. Para ouvir, Twist And ShoutThe Beatles.You know you twist, little girl ...”.


 TEMPERO ESPECIAL
Em Buenos Aires, oportunamente esbarrei em pilhas do livro na Ateneo Grand Splendid, “uma livraria pra chamar de minha”, sediada onde até 1926 funcionou o Teatro Grand Splendid, no Bairro da Recoleta. Passando por lá, visite, circule entre as estantes, suba ao palco para ir até o café, deleite-se e emocione-se com o clima e não deixe de levar Mafalda pra casa! E claro, vá até o Bairro de San Telmo para vê-la.