Jack
é um simpático garotinho que acabou de completar 5 anos, ganhando da Mãe um desenho feito por ela enquanto ele dormia
no Quarto. Além de dormirem, ele e a
Mãe fazem muitas coisas no Quarto.
Na verdade, lá eles fazem tudo, pois é onde vivem. Às vezes Jack passa um tempo
no Guada-Roupa, sempre que o velho Nick visita a Mãe, ficando quietinho até a Cama
parar de ranger.
Diferente
da Mãe que veio do Lá Fora, Jack nasceu e cresceu no Quarto, seu universo de brincadeiras, desenhos, aprendizados, e, fundamentalmente,
de amor. O amor que fez a Mãe transformar aquele pequeno espaço em um mundo
inteirinho para dois, mas que agora ficou bem apertado, apertado o suficiente
para que saiam de lá.
Narrado
na doce e pura voz de Jack, esta obra saborosa de Emma Donoghue é uma experiência literária assustadoramente real,
exprimindo com inocência impressões de uma vida originada no isolamento. Os
diálogos estabelecidos entre mãe e filho são de uma ingenuidade comovente, o
que torna o contexto ainda mais perverso.
“Ouvir” Jack falar de sua mãe é perturbador,
pois a ternura da relação por ela conduzida em circunstâncias tão devastadoras desnudam
nossa visão para os horrores indigestos do cotidiano, horrores para os quais
fechamos os olhos na expectativa de que simplesmente desapareçam de nossas
mesas.
“A mãe se levantou pra fazer xixi, mas
sem falar, com o rosto todo vazio.” – Pág. 75
Os
elementos usados pela autora na composição deste prato perdem sua essência acre
através do discurso de Jack, que parece estar ao nosso lado durante toda a
leitura, observando nossas reações e dizendo “nem vem, neném”.
Minha
degustação do texto foi angustiante, e por todas as páginas quis proporcionar para
mãe e filho uma bela refeição ao ar livre. Também desejei para eles as mais
sublimes melodias, mas nada seria tão especial quanto o som de pássaros na
liberdade de um céu azul.
Experimente
o memorável sabor do Quarto.





