"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor
louco com uma adolescente virgem. (...) Nunca sucumbi a esta nem a nenhuma de
suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus
princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia (...)." -
Pág. 7
Com este aperitivo Gabriel Garcia Márquez convida-nos a degustar Memória de Minhas Putas Tristes, uma
das obras mais belas que já li, não sem antes julgá-la, precoce e
estupidamente, clichê.
Para além da cama ou outro
elemento sugerido pelo título, o livro é uma doce poesia sobre o amor, o
envelhecer e a solidão, ingredientes que temperam o prato de todos nós. Seu texto gracioso e inteligente suaviza o
contexto indigesto, ao mesmo tempo em que ressalta o sabor da vida, suas
virtudes e possibilidades.
"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela.
Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê."
- Pág. 109
O protagonista centenário, cronista no jornal de
domingo e professor de gramática, surpreende pela elegância e intensidade com
que nos serve suas emoções e desassossegos, descobrindo que morrer de amor
significa bem mais que uma licença poética. Talvez pelo ridículo ao qual o amor nos expõe, passou
a vida relacionando-se com “mulheres descartáveis", percebendo o sentimento
e sua humanidade ao pousar os olhos em Delgadina, a ninfeta adormecida,
seu presente nu.
"Foi algo novo pra mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha
escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos,
e fazíamos amores sem amor (...). Naquela noite descobri o prazer inverossímil
de contemplar, sem as angustias do desejo (...)." - Pág. 35
O gosto desse primor de Márquez
pode ser encontrado em uma Oblea com Doce de Amora, o feminino de amor.
Delicado, agridoce e saborosamente afetuoso.
Seu ritmo compreendido em Solamente
Una Vez, na voz de Augustín Lara, a predileta do protagonista, pois há quem diga que o amor acontece somente uma vez.




