7 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES




"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. (...) Nunca sucumbi a esta nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia (...)." - Pág. 7

Com este aperitivo Gabriel Garcia Márquez convida-nos a degustar Memória de Minhas Putas Tristes, uma das obras mais belas que já li, não sem antes julgá-la, precoce e estupidamente, clichê.

Para além da cama ou outro elemento sugerido pelo título, o livro é uma doce poesia sobre o amor, o envelhecer e a solidão, ingredientes que temperam o prato de todos nós.  Seu texto gracioso e inteligente suaviza o contexto indigesto, ao mesmo tempo em que ressalta o sabor da vida, suas virtudes e possibilidades.

"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê." - Pág. 109

O protagonista centenário, cronista no jornal de domingo e professor de gramática, surpreende pela elegância e intensidade com que nos serve suas emoções e desassossegos, descobrindo que morrer de amor significa bem mais que uma licença poética. Talvez pelo ridículo ao qual o amor nos expõe, passou a vida relacionando-se com “mulheres descartáveis", percebendo o sentimento e sua humanidade ao pousar os olhos em Delgadina, a ninfeta adormecida, seu presente nu. 

"Foi algo novo pra mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor (...). Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angustias do desejo (...)." - Pág. 35

O gosto desse primor de Márquez pode ser encontrado em uma Oblea com Doce de Amora, o feminino de amor. Delicado, agridoce e saborosamente afetuoso.

Seu ritmo compreendido em Solamente Una Vez, na voz de Augustín Lara, a predileta do protagonista, pois há quem diga que o amor acontece somente uma vez.

19 de setembro de 2012

TODA MAFALDA


Ela é uma garotinha de 6 anos  que vai à escola, brinca com os amigos, dança ao som de Beatles, desafia os pais, questiona e escolhe o que quer comer. Odeia a injustiça, as guerras, o racismo e todas as outras invenções dos adultos, defendendo veementemente os direitos humanos e a paz . Bom, não fossem alguns ingredientes, ela seria uma garotinha como outra qualquer...

 Mafalda, a enfant terrible, veio ao mundo na década de 60 pelas mãos de Quino, cartunista argentino que nos serviu seu humor inteligente, sutil, atemporal e reflexivo por meio dessa adorável contestadora. Na década de 70, com a mesma perspicácia com que a criou, ele a retirou da mesa para não enfadar nosso paladar. Segundo o autor, ele estava tornando-se repetitivo.

Em Toda Mafalda temos compiladas as tirinhas cozidas nesses dez anos de trabalho, nas quais Quino nos apresenta uma consciência infantil, divertida e ácida acerca da família, da sociedade, da política, das relações humanas e da internacionalização, aguçando nosso senso crítico.


A obra também traz informações interessantes sobre o processo de criação de Mafalda e sobre seu autor, além de opiniões como a de Umberto Eco: “Já que nossos filhos vão se tornar, por escolha nossa, outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real.”

Rejeitando o mundo como ele é, com o mesmo rigor com que rejeita um prato de sopa, Mafalda e os demais personagens de Quino nos divertem e nos mostram que a insatisfação com uma realidade desarrazoada não é coisa só para adultos.


Para acompanhar a leitura, Caramelos Artesanais. Assim como nossa Mafalda, é autêntico, azedinho, divertido e gruda na gente. Para ouvir, Twist And ShoutThe Beatles.You know you twist, little girl ...”.


 TEMPERO ESPECIAL
Em Buenos Aires, oportunamente esbarrei em pilhas do livro na Ateneo Grand Splendid, “uma livraria pra chamar de minha”, sediada onde até 1926 funcionou o Teatro Grand Splendid, no Bairro da Recoleta. Passando por lá, visite, circule entre as estantes, suba ao palco para ir até o café, deleite-se e emocione-se com o clima e não deixe de levar Mafalda pra casa! E claro, vá até o Bairro de San Telmo para vê-la.


8 de agosto de 2012

SOBRE LETRAS E PANELAS

O Cemitério de Praga (Umberto Eco)


O tempo passou, o sentimento mudou e a vida recomeçou (mais feliz).

Inspirada pela reforma da cozinha adquiri outros ingredientes e voltei a cozer letras, agora não para preencher o “buraco no estômago”, mas para experimentar novos sabores e transbordar o paladar da alma.

Provando um livro aqui outro ali, escolhi os que me alimentam e iniciei o preparo de pratos diversos, cheia de idéias e fome suficiente para devorar uma estante.

Panelas, digo que voltei!


13 de junho de 2011

A BATALHA DO APOCALIPSE



Passei os últimos dois meses devorando A Batalha do Apocalipse, do estreante Eduardo Spohr, que por sinal começou muito bem.

Misturando ingredientes controversos como história, política, filosofia, religião e uma pitada de romance, o novo Chef conseguiu elaborar um prato encorpado, intenso, merecedor de uma degustação demorada, necessária para a apreciação de suas várias tramas, envoltas em misticismo, magia e batalhas.

“Mas, com o tempo, ele foi entendendo que os eventos espirituais encontram reflexo no plano físico. Foi assim que, pela primeira vez, percebeu os sinais, os indícios que confirmavam os últimos dias da terra. Começou com aquilo que os profetas chamaram de ‘Cavaleiros do Apocalipse’. Não houve cavaleiro de fato, nem entidades montadas que personificassem a previsão. Mas o renegado podia percebê-los nas guerras (...), na fome (...), nas epidemias, (...) e em todo lugar onde a morte arrastava seu manto. Depois a situação mundial se degradou, e isso nada teve a ver com as forças infernais ou celestiais.” – Pág. 41

À mesa fantástica de Spohr encontram-se diferentes castas de anjos, demônios, magos e outras criaturas incríveis, entre eles os humanos, e sua especial essência. Ocupando lugares de honra, o renegado Ablon, a feiticeira Shamira, o Arcanjo Miguel, o misterioso Anjo Negro e o próprio Lúcifer, todos ansiosos pelo despertar do Criador, evento que determinará o dia do Juízo Final, a batalha que decidirá o destino da humanidade.

“Mas isso tudo seria simplesmente mais uma guerra, não fossem os rasgos permanentes no tecido da realidade. Todos, anjos e demônios, sentiram que a membrana estava se desfazendo.” – Pág. 43

Mas até que finde o sétimo dia, e Yahweh acorde do sono que dura desde a criação do universo, acompanhamos Ablon e os demais em suas viagens pelo mundo, dos dias imemoráveis aos atuais, transitando entre o céu e o inferno, descobrindo dimensões singulares que parecem ter envolvido alquimia em seu preparo que, quase em banho-maria, os incorporou de maneira deliciosamente precisa, resultando em uma ficção de dar água na boca.

Com uma linguagem formal e uma narrativa não-linear, o texto é entrecortado por flashbacks que contextualizam, ilustram e esclarecem, auxiliando-nos na digestão de acontecimentos quiméricos, servidos em porções generosas. Outros ingredientes que contribuem para a leitura são o glossário e a linha do tempo, servidos ao final da obra, embora fossem mais interessantes se acompanhados de um mapa.

No prefácio vemos uma comparação entre A Batalha do Apocalipse e a obra de Tolkien, que mostrou-se justa, uma vez que o livro tem o poder de nos transportar para outro mundo, outro tempo, sentenciando-nos à angústia do retorno quando a leitura precisa ser interrompida. Pessoalmente, comparo-a ainda ao Código da Vinci e Anjos e Demônios, de Dan Brown, que juntam homogeneamente ingredientes reais e imaginários, fazendo-nos acreditar no impossível.

Diferentemente da comparação literária, a gastronômica é única, não havendo melhor opção que um Filet de Boeuf Béarnaise: combinação desafiadora, ingredientes cuidadosamente reunidos, habilidade no preparo. Delicioso!

Como acompanhamentos, um bom tinto, fresco e frutado, e Lullaby, com Loreena Mckennitt.

Ah, e não se assuste se ao término da leitura você perceber as oscilações de energia como "rasgos no tecido da realidade"...