11 de outubro de 2010

MISTO-QUENTE



Depois de me servir de Charles Bukowski, em Misto-Quente, percebi que ele não é para qualquer um. Não é para mim!

Para comer com esse “velho safado”, como é conhecido, é preciso ter um estômago que agüente a companhia de um bêbado, sujo e nojento, que cospe em nossa cara histórias autobiográficas que fazem Nelson Rodrigues parecer contos de fadas.

Usando o alter-ego Henry Chinaski, e uma escrita sincera e extremista, Bukowski narra em Misto-Quente detalhes de sua vida que explicam a pessoa que ele se tornou, detalhes que no início me fizeram rir e acreditar, ingenuamente, que seu cardápio não era tão indigesto como diziam. Doce engano...

“Escutei meu pai entrar. Ele sempre batia a porta, caminhava pesadamente e falava aos brados. Ele estava em casa. Depois de alguns instantes, a porta do quarto foi aberta. Tinha 1,89 de altura, um homem grande. Tudo mais desapareceu: a cadeira em que eu estava sentado, o papel da parede, as próprias paredes, inclusive meus pensamentos. Ele era como a escuridão encobrindo o sol, a violência que ele exalava aniquilava por completo qualquer outra coisa. Ele era todo orelhas, nariz, boca, eu não podia olhar em seus olhos, havia apenas seu rosto vermelho e enfurecido.”Página 42

“Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim.”
Página 92

“Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.”
Página 105

Como não gosto de “fazer desfeita” forcei-me a comer, mas o sabor era tão chulo que, num dado instante, regurgitei. Foi aí que vi o quanto de pudor mora em mim.

O gosto de Henry Chinaski, um sujeitinho que parece ter nascido por castigo, não me agradou. E mesmo sabendo que suas falas representam mais que palavrões, deixei-o sozinho à mesa.

Saí às pressas, ao som de Bad Things, Jace Everett.

8 de outubro de 2010

A DISCIPLINA DO AMOR



Dá gosto saborear as iguarias que Lygia Fagundes Telles nos oferece nessa obra, irresistivelmente bem temperada com sua delicadeza, elegância e intensidade.

Composto por fragmentos do cotidiano, observações de viagens, reflexões filosóficas e apontamentos psicanalíticos, A Disciplina do Amor leva-nos a acreditar que saboreamos o próprio diário da autora, com relatos que, implicitamente, cozem um verdadeiro banquete de amor e vida.

“(...) que duro o julgamento desse próximo, medida de todas as coisas. Tão atento o nosso próximo. Atento e desatento: condena, absolve, aconselha, desaconselha e depois vai tomar chope, esquece. O objeto do julgamento – o réu – levando tudo tão a sério, fazendo e desfazendo. E o outro, como no poema, tirando ouro do nariz.”Senso de Humor, pág. 19

“(...) Tão difícil a vida e seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo. Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos de sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E por acaso é com o analista que se comenta o filme na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho, esse gosto meio frisante, hen?”29 de Janeiro, pág. 24

“(...) ninguém morre. É que os mortos são discretos. Tão silenciosos. Os braços de éter, a voz de aragem. Habituada ao mundo visível, você se desespera com a aparente ausência, quer tocá-la e não atinge.”Fragmentos da Carta à Mãe em Prantos, pág. 50

“Para a Sibéria deveriam ser mandados os narcisos em delírio num pequeno estágio de humildade. Os ventos passam, os homens passam e ninguém sabe.”A Mulher de Omsk, pág. 55

Entre lembranças, fantasias, contos e inquietudes, desfrutamos à indispensável mesa de Lygia de seu real e imaginário, que aconchega, conduzindo-nos à introspecção, assim como o Caldo de Frango, servido quente, em noite solitária, ao som da clássica Canon, de Pachelbel.

30 de setembro de 2010

FEIOS



Como seria o mundo se todos nós, na adolescência, o ápice do período da aceitação, fôssemos submetidos a uma cirurgia para nos tornarmos belos e perfeitos? E se, a partir daí, nossa vida fosse repleta de diversão, festas e muito glamour?

Esse é o cardápio de Feios, que com um ritmo frenético e juvenil vai página a página servindo-nos a história de Tally Youngblood, uma jovenzinha que vive ansiosa à espera do momento em que finalmente se tornará perfeita com a cirurgia, presente-obrigatório do governo e passaporte que lhe possibilitará viver em uma das torres iluminadas e borbulhantes da cidade de Nova Perfeição, tendo como única preocupação divertir-se com o luxo e a badalação que só a beleza pode proporcionar.

Mas como nada é simples na vida de um adolescente, também nos servimos dos conflitos internos da protagonista.

Tratando questões como diversidade, personalidade, individualidade e estética, tendo a beleza como parâmetro definitivo, Scott Westerfeld “corrige” a “injusta” convivência entre belos e feios transformando todos em perfeitos, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o que está do outro lado do espelho, e que não é nada bonito: o preço a ser pago para enquadrar-se aos padrões.

“Claro. Até parece que as coisas eram maravilhosas quando todo mundo era feio. (...) Todo mundo julgava todo mundo pela aparência. As pessoas mais altas conseguiam empregos melhores, e o povo votava em certos políticos só porque eles não eram tão feios quanto a maioria. (...) E as pessoas se matavam por coisas como uma cor de pele diferente. (...) Então, qual é o problema de as pessoas serem mais parecidas agora? É o único jeito de tornar as pessoas iguais.”Página 47

“Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem ‘quem é ela?’ e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.”
Página 94

“(...) E agora todos são felizes, porque todos são iguais. Todos são perfeitos. (...) Talvez as guerras e todas as outras coisas tenham acabado simplesmente porque não há mais controvérsias, discordâncias ou pessoas reivindicando mudanças. Apenas massas de perfeitos sorridentes. E algumas outras pessoas que controlam tudo.”
Página 260

O gosto da obra futurista e escapista de Westerfeld assemelha-se muito ao paladar de Amendoins Japoneses, que ingeridos despretensiosamente levam-nos a acabar com uma porção e imediatamente pedir a próxima, nesse caso, os próximos da série: Perfeitos, Especiais e Extras.

Para embalar a leitura de Feios, que figurou na lista de Best Sellers do The New Yourk Times, Vanity, de Lady Gaga, porque com certeza é "isso" que toca nas torres de Nova Perfeição.

21 de setembro de 2010

EU E OUTRAS POESIAS



Eu e Outras Poesias é o único livro publicado de Augusto dos Anjos, autor, sem precedentes, de mazelas, angústias, humilhações e toda espécie de desgraça que se possa imaginar.

Seu texto não cozido serve-nos uma perspectiva indigesta de mundo e relacionamentos, capaz de nausear estômagos sensíveis e gerar repulsa mesmo àqueles que apreciam pratos exóticos.

Poeticamente agressivo, literariamente orgânico, Eu e Outras Poesias expressa as verdades nuas e cruas de um autor melancólico e pessimista, deixando na boca o gosto bruto de um prato com ínfimo preparo, tal qual o Carpaccio Tradicional.

“(...)
A Consciência Humana é este Morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente no quarto!”O Morcego

“(...)
Toma uma fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mal vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”Versos Íntimos

Pela primeira vez não resisto e coloco minha colher no prato, salpicando-o com otimismo discreto de Meditação, na voz de João Gilberto, porque realmente acredito que no fim tudo dá certo.