Depois de me servir de Charles Bukowski, em Misto-Quente, percebi que ele não é para qualquer um. Não é para mim!
Para comer com esse “velho safado”, como é conhecido, é preciso ter um estômago que agüente a companhia de um bêbado, sujo e nojento, que cospe em nossa cara histórias autobiográficas que fazem Nelson Rodrigues parecer contos de fadas.
Usando o alter-ego Henry Chinaski, e uma escrita sincera e extremista, Bukowski narra em Misto-Quente detalhes de sua vida que explicam a pessoa que ele se tornou, detalhes que no início me fizeram rir e acreditar, ingenuamente, que seu cardápio não era tão indigesto como diziam. Doce engano...
“Escutei meu pai entrar. Ele sempre batia a porta, caminhava pesadamente e falava aos brados. Ele estava em casa. Depois de alguns instantes, a porta do quarto foi aberta. Tinha 1,89 de altura, um homem grande. Tudo mais desapareceu: a cadeira em que eu estava sentado, o papel da parede, as próprias paredes, inclusive meus pensamentos. Ele era como a escuridão encobrindo o sol, a violência que ele exalava aniquilava por completo qualquer outra coisa. Ele era todo orelhas, nariz, boca, eu não podia olhar em seus olhos, havia apenas seu rosto vermelho e enfurecido.” – Página 42
“Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim.” – Página 92
“Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.” – Página 105
Como não gosto de “fazer desfeita” forcei-me a comer, mas o sabor era tão chulo que, num dado instante, regurgitei. Foi aí que vi o quanto de pudor mora em mim.
“Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim.” – Página 92
“Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.” – Página 105
Como não gosto de “fazer desfeita” forcei-me a comer, mas o sabor era tão chulo que, num dado instante, regurgitei. Foi aí que vi o quanto de pudor mora em mim.
O gosto de Henry Chinaski, um sujeitinho que parece ter nascido por castigo, não me agradou. E mesmo sabendo que suas falas representam mais que palavrões, deixei-o sozinho à mesa.
Saí às pressas, ao som de Bad Things, Jace Everett.



