19 de julho de 2010

O ANTINARCISO



Definitivamente, esse exemplar não é para quem gosta de pratos adocicados, marcados por finais felizes. Sim, porque todos os personagens de seus 12 contos estão condenados ao fracasso, em toda e qualquer perspectiva.

Também não é para quem julga o prato pela aparência, ou o livro pela capa, visto que nesta temos uma visão turva e desfocada de nós mesmos, o que pode predizer um encontro com nossa própria natureza, ao mesmo tempo nobre e miserável.

Salpicado por elementos cotidianos que normalmente estão escondidos na despensa, Antinarciso é para ser degustado em um dia fresco e em prato fundo, isso para que o calor não nos consuma e para que não se derrame à mesa porções de relações mal sucedidas, infâncias infelizes, frustrações ou crises existenciais.

Saborear essa verdadeira Rabada, absorvendo seus personagens que parecem não se importar com suas realidades e destinos, exige-nos certa complacência; caso contrário, corremos o risco da deselegância, transformando uma boa e bem-humorada conversa de almoço em sessão terapêutica, tentando salvá-los (salvarmo-nos) de um mundo narcisista, destituído de sentido, com escassa possibilidade de felicidade.

O prato é gordo, e para nos ajudar a finalizá-lo Mário Sabino utiliza linguagem contemporânea, clara e concisa, como a descrita abaixo, o que nos serve de antiácido e alivia a indisposição causada por um ou outro ingrediente mais picante:

“- Bom, tive a idéia de revê-la ao examinar um álbum antigo.

- Você tem uma foto minha?

- Não, é que nesse álbum havia umas fotos de quando eu tinha nove anos, a época em que fui apaixonado por você.

- Você faz o quê?

- Sou médico. E você?

- Prostituta.” Suzana, pág. 99

Leia se balançando ao som de Marlene Kuntz, La Lira Di Narciso.

16 de julho de 2010

DEPOIS



Organizado e traduzido por Heloísa Seixas, Depois nos serve contos de autores do século XIX capazes de deixar um gosto singular na boca, provocado por ingredientes desconhecidos, sobrenaturais, e uma pitada de humor.

Alguns dizem que a mistura desses elementos resulta em subliteratura nauseante, mas é possível encontrar quem saiba dosá-los e criar pratos para comermos rezando, literalmente, como este.

As sete histórias apresentadas possuem tempero único e envolvência suficiente para passarmos à noite em claro a saboreá-las, mas também é preciso considerar o medo de apagar as luzes.

Agridoce, de temperatura gélida, com estilo leve e sofisticado, Depois pode ser comparado a Parfait de Limão Siciliano, servido como sobremesa de um jantar regado à assuntos insólitos. Causa arrepio, esfria a alma e deixa um cheiro ácido no ar.

“Olhou as fileiras de livros por toda parte, fechando-se sobre ela como pedras desabando de uma ruína; e ouviu a voz de Parvis, vinda de muito longe, através das paredes que caíam, gritando seu nome, tentando chegar até ela. Entorpecida, Mary já não poderia ser alcançada e tampouco conseguia entender o que ele dizia. Mas em meio àquele torvelinho pôde ouvir com clareza a voz de Alida Stair, a frase dita no gramado em Pangbourne. ‘Vocês não vão saber logo, só depois de algum tempo. ’” Depois, Edith Wharton, pág. 51

“Já disse que sempre lidei com regiões para além do mundo visível, mas não disse que fazia isso sozinho. Isto, nenhuma criatura humana pode fazer; sem o apoio de outro ser vivo, qualquer um sucumbiria inevitavelmente em meio à companhia daqueles que não vivem, ou melhor, que não vivem mais.”
O Túmulo, H. P. Lovecraft, pág. 56

“Foi através daquela janela que, no dia de hoje, há exatamente três anos, o marido e os dois irmãos mais novos de minha tia saíram para caçar. Nunca mais voltaram. (...) Os corpos jamais foram encontrados. (...) Titia continua acreditando que um dia eles voltarão (...).”
– A Janela Aberta, Saki, pág. 72

“O jovem seguiu-a, escada acima. Uma luz mortiça, de origem difusa, amainava um pouco as sombras do corredor. Subiram em silêncio, pisando o carpete que adornava a escada e que talvez seu próprio vulto tivesse renegado. Parecia feito de matéria vegetal; dava a impressão de ter degradado no ar fétido e sombrio, transformando-se em líquen espesso e fazendo espalhar-se o musgo que crescia em placas na escada, viscoso sob os pés como matéria orgânica. A cada volta da escada havia nichos na parede. Talvez um dia tivessem abrigados vasos de planta. Se assim fora, certamente haviam fenecido naquele ambiente maculado e imundo. Ou talvez tivessem sido estátuas de santos que um dia ali houvera, mas não era difícil imaginar demônios e ímpios arrastando-as na escuridão rumo às profundezas sacrílegas de algum covil lá embaixo.”
O Quarto Mobiliado, O. Heny, pág. 80

“Não saberia, de forma alguma, descrever para o senhor a natureza do horror que me trespassou. Assim que me certifiquei de que aquilo era uma ilusão, como supunha, tive um terrível pressentimento a respeito de mim mesmo, sendo tomado por um terror que me enfeitiçou de tal forma, a ponto de não conseguir, durante um longo instante, desgrudar os olhos daquele pequeno monstro.”
Chá Verde, Sheridan Le Fanu, pág. 113

“Foi nesse museu que Barach deitou-se para dormir. Ele não saberia dizer por quanto tempo dormira, mas de repente viu-se novamente desperto e consciente de que algo se movia no interior do quarto.”
Sonata ao Luar, Alexander Woollcott, pág. 138

“A psicologia dos lugares, pelo menos para algumas imaginações, é muito vívida. Para o viajante, especialmente, cada acampamento tem seu tom, que pode significar boas-vidas ou rejeição. É algo que nem sempre se nota de imediato, quando se está ocupado na preparação da tenda ou do jantar, mas assim que tudo se acalma – geralmente depois da comida -, ele se apresenta.”
Os Salgueiros, Algernon Blackwood, pág. 159

Para embalar, Tchaikovsky e sua Dança da Fada Açucarada.

8 de julho de 2010

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA



Composta por sete histórias, a série As Crônicas de Nárnia nos faz voltar à época dos contos de fadas, intercalando personagens de nossa infância com elementos de nossas crenças, o que torna este livro um volume a ser eternizado, passado de geração em geração como uma boa receita de família.

Constituem o volume único: O Sobrinho do Mago; O Leão, a Feiticeira e o Guarda- Roupa; O Cavalo e Seu Menino; Príncipe Caspian; A Viagem do Peregrino da Alvorada; A Cadeira de Prata; A Última Batalha.

Envolvente e marcante, o mundo encantado criado por C.S. Lewis subsiste paralelo ao nosso, e é habitado por figuras mitológicas e lendárias, tendo como personagem principal o Leão Aslam, responsável pela composição de contextos magníficos nas aventuras e batalhas entre o bem e o mal.

A narrativa de Lewis é capaz de nos conduzir para dentro dos contos, despertando emoções e questionamentos que dão um sabor todo especial ao livro, que apresenta um claro embasamento cristão, reflexo do protestantismo do autor.

Essa característica é pontuada em vários trechos, como por exemplo na cronologia daquela terra, cujo conceito de temporalidade foi adaptado da Bíblia: “(...) para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.” – 2 Pedro 3:8. A geografia de Nárnia também retrata a fé de Lewis, que a descreve banhada por um oceano que finda no País de Aslam, sendo esta uma forte menção ao Céu.

O gosto deste volume faz com que não queiramos degustar suas 751 páginas, mas saboreá-las com avidez, entretanto demoradamente, para que seu paladar e essência sejam sentidos e apreendidos.

Como um Boeuf Bourguignon, Nárnia é um livro simples e ao mesmo tempo surpreendente, cujo desfecho objetivo causa-nos admiração e nos faz lamber os dedos.

A preparação de um Boeuf Bourguignon requer apenas paciência, dispensando conhecimentos mais aprofundados de culinária. Da mesma forma, Nárnia exige de seu leitor apenas disposição de espírito, já que o conhecimento de seu pano de fundo pode ser adquirido no decorrer da leitura.

Vários são os trechos que gostaria de transcrever aqui, mas registro o que me traduziu o gosto do livro:

“Eu sabia que tinha de fazer o que me dizia, porque me levantei e o segui. (...) Nunca tinha visto água tão clara e achei que se me banhasse ali talvez passasse a dor na pata. Mas o leão disse para tirar a roupa primeiro. (...) Ia responder que não tinha roupa, quando me lembrei que os dragões são, de certo modo, parecidos com as serpentes, e estas largam a pele. ‘Sem dúvida é o que ele quer’, pensei. Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pela toda, inteirinha, como depois de uma doença (...). Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. (...) Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: ‘Deus do céu! Quantas peles terei de despir?’. (...) Esfreguei-me pela terceira vez e tirei a terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse: ‘Eu tiro a sua pele’. (...) E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói para valer, mas é bom ver o espinho sair. (...) Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado(...). Nessa altura agarrou-me (...) e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor no braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. (...) Depois de certo tempo, o leão me tirou da água e vestiu-me. (...) me vestiu com uma roupa nova.” – A Viagem do Peregrino da Alvorada

Saboreie-o, demoradamente, ao som de The Call, com Regina Spektor.

Harmonização de prato, letra e alma.

7 de julho de 2010

A VOLTA POR CIMA



Leves e divertidas, eis minhas definições para as obras de Fernando Sabino.

Penso que Fernando (nossa mineiridade faz com que eu o trate assim), tal qual uma Salada de Folhas Verdes com Queijo de Cabra ao Molho Mostarda e Maracujá, tem o propósito de nos proporcionar experiências distintas para sabores do cotidiano, ressaltados e transformados pela combinação de ingredientes.

Tomei conhecimento do autor na minha infância, enquanto saciava meu apetite na estante de um tio. Lembro-me que àquela época o que despertou minha atenção foi ler sobre fatos ocorridos, ou não, em lugares por mim conhecidos. E só!

Com o passar do tempo a experiência foi ajudando-me a compreendê-lo, a apreciá-lo, até o ponto de transformá-lo em um dos meus queridinhos. De tanto ler Fernando, hoje ele me acompanha da cabeceira para a mesa, e vice versa.

Como uma boa salada, é possível saborear Fernando sem que ele se torne enjoativo. Alguns podem julgá-lo frugal, mas percebo essa característica com o paladar: sempre repetimos um prato gostoso e moderado, tal qual A Volta Por Cima, livro de contos, crônicas e histórias em que o autor escreve sobre assuntos como música, amor, morte, roubo, anatomia e outros mais.

Considerado um maître, quer dizer, mestre no gênero, trata episódios, incidentes, reflexões, encontros e desencontros com tamanha excelência que pode ser comparado ao melhor dos chefs, cozinhando idéias e palavras, compondo uma saborosa salada literária.

Prove algumas porções de A Volta Por Cima:

“Chegava tarde da noite, aborrecido, trazendo da rua uma daquelas contrariedades da juventude,e, em vez de ir chorar na cama que é lugar quente, descia o braço na bateria. Era a minha desforra. Sem aprender a tocar, e apenas tendo certo jeito, me esbaldava em toda forma de barulho a que chamava ritmo. Meu pai surgia de pijama à porta: ‘ A essa hora não, meu filho. Tenha Paciência’. Paciência tinha ele, que não me botava na rua com bateria e tudo.”A Alma da Música

“Para ver melhor, Carlinhos se aproximou da cama, chegou a cara bem perto do rosto da velha, examinou as mãos cruzadas sobre o peito: Você não falou que quando a gente morre vai para o céu? Por que ela ainda não foi?”Vovó Vai Voando

“O avião fez que ia, não ia, balançou um pouco no ar, tirou um fino na copa das árvores ao fim da pista, acabou indo. Compúnhamos um grupo grotesco, apertado ali dentro – se o avião caísse, teríamos que ser enterrados com ele, numa cova coletiva.”A Volta Por Cima

“Tinha que entender aquele complicado cerimonial mineiro (...). A primeira vez ele recusou por educação. A segunda, para ver se eu não estava convidando também por educação. A terceira, porque não sabia se havia comida que desse para ele. A quarta, finalmente, ele estava aceitando, mas não ficava bem dizer sim depois de ter dito três vezes não.”A Arte de Dizer Não

Para acompanhar a leitura, Blue Skies, com ela, Ella Fitzgerald. Porque ele gostava dela... E quem não?