21 de fevereiro de 2013

VIAJANTE CHIC




Esse exemplar foi presente de um companheiro de viagem tarimbado, e mesmo após suas negativas insisto que a intenção do mimo foi temperar a espontaneidade da Viajante Chic que vive em mim. Afora o amargo da dúvida, e a brincadeira, fiquei com água na boca ao receber o livro de Glória Kalil, consultora de moda, beleza e comportamento, elementos indispensáveis à boa mesa.

De entrada me pareceu uma receita para degustadores experientes de céus, mares, estradas e trilhos, mas durante a leitura provei um roteiro que, embora nutritivo, traz informações triviais, incapazes de alimentar apetites severos (a semelhança com uma barrinha de cereal não é mera coincidência).

Mesmo sem um sabor surpreendente o livro merece ser explorado, ainda mais pelos iniciantes, uma vez que está recheado com dicas e exemplos que vão do planejamento da viagem ao retorno para o lar, tudo bem detalhado em um texto espirituoso e elegante.

No menu viagens de trabalho e lazer, com ou sem acompanhamentos, como familiares, amigos,  casais, crianças ou yourself.  Providências de documentação e vacinas, organização da mala considerando ocasiões e condições climáticas, inspiração para bons comportamentos em diferentes ambientes e situações também estão no cardápio. De sobremesa as orelhas do livro, que recortadas transformam-se em checklist de toillete, bagagem e agências.

Honesto, sem frescura e divertido, assim como a autora, Viajante Chic garante trechos com boas risadas, principalmente os que comparam os serviços oferecidos para as diferentes classes estabelecidas pelas empresas de viagem.

“PRIMEIRA CLASSE – O grande diferencial é (...).
CLASSE EXECUTIVA – A diferença em relação à classe turística está (...).
CLASSE TURÍSTICA OU ECONÔMICA – O principal problema é (...)”. – Pág. 100

Vai fazer as malas? Reserve um espaço para o livro e para o bom senso, pois “chic mesmo é ser civilizado, já que não dá para parecer elegante se nossas atitudes atrapalham a viagem dos outros”.  


Item importante: fones de ouvido. Sempre! Pra tocar?
Viva La Vida, Coldplay. Embala qualquer viagem.


19 de fevereiro de 2013

QUARTO



Jack é um simpático garotinho que acabou de completar 5 anos, ganhando da Mãe  um desenho feito por ela enquanto ele dormia no Quarto. Além de dormirem, ele e a Mãe fazem muitas coisas no Quarto. Na verdade, lá eles fazem tudo, pois é onde vivem. Às vezes Jack passa um tempo no Guada-Roupa, sempre que o velho Nick visita a Mãe, ficando quietinho até a Cama parar de ranger.

Diferente da Mãe que veio do Lá Fora, Jack nasceu e cresceu no Quarto, seu universo de brincadeiras, desenhos, aprendizados, e, fundamentalmente, de amor. O amor que fez a Mãe transformar aquele pequeno espaço em um mundo inteirinho para dois, mas que agora ficou bem apertado, apertado o suficiente para que saiam de lá.

Narrado na doce e pura voz de Jack, esta obra saborosa de Emma Donoghue é uma experiência literária assustadoramente real, exprimindo com inocência impressões de uma vida originada no isolamento. Os diálogos estabelecidos entre mãe e filho são de uma ingenuidade comovente, o que torna o contexto ainda mais perverso.

 “Ouvir” Jack falar de sua mãe é perturbador, pois a ternura da relação por ela conduzida em circunstâncias tão devastadoras desnudam nossa visão para os horrores indigestos do cotidiano, horrores para os quais fechamos os olhos na expectativa de que simplesmente desapareçam de nossas mesas.

“A mãe se levantou pra fazer xixi, mas sem falar, com o rosto todo vazio.” – Pág. 75

Os elementos usados pela autora na composição deste prato perdem sua essência acre através do discurso de Jack, que parece estar ao nosso lado durante toda a leitura, observando nossas reações e dizendo “nem vem, neném”.

Minha degustação do texto foi angustiante, e por todas as páginas quis proporcionar para mãe e filho uma bela refeição ao ar livre. Também desejei para eles as mais sublimes melodias, mas nada seria tão especial quanto o som de pássaros na liberdade de um céu azul.

Experimente o memorável sabor do Quarto

15 de fevereiro de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA




Ao selecionar ingredientes como uma menina de tranças, um jovem poeta amante de música, um médico “bom partido”, cartas secretas e paixão Gabriel García Márquez poderia ter preparado um belo melodrama, mas o que ele serviu foi um banquete de sentimentos que satisfaz paladares exigentes.

Considerado seu romance mais notável, O Amor nos Tempos do Cólera conta a historia do triangulo amoroso composto por Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino,  personagens marcantes de uma narrativa que decorre cinquenta e três anos, quatro meses e onze dias. Ambientado no Caribe do Século XIX, tem como pano de fundo o Cólera, a Guerra Civil e outras questões sociais, apresentadas de forma intensa e emocionante.

Baseada na vida de seus pais, a obra de Márquez traz questões diversas acerca de relacionamentos estabelecidos em uma sociedade marcada por convenções e preconceitos, salientando nuances dos arroubos juvenis à serenidade da velhice, alcançando núcleos e personagens distintos, não se limitando ao trio.

Redigido com sutileza, ingênua sensualidade e humor requintado, o texto é salpicado com detalhes que temperaram de forma envolvente, resgatando sentimentos já recolhidos, conferindo-lhes novos cheiros e gostos, permitindo que avaliemos os limites que infligimos às próprias emoções.

“Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele tomava banho, e apesar das discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobrava da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças (...).” – Pág. 259

Reserve a melhor poltrona, programe A Morte e a Donzela de Schubert em um volume agradável para harmonizar com Bruschettas de Berinjela e deleite-se: sabor, dramaticidade e elegância na medida desta história de amores, sabores e musicalidade.

7 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES




"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. (...) Nunca sucumbi a esta nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia (...)." - Pág. 7

Com este aperitivo Gabriel Garcia Márquez convida-nos a degustar Memória de Minhas Putas Tristes, uma das obras mais belas que já li, não sem antes julgá-la, precoce e estupidamente, clichê.

Para além da cama ou outro elemento sugerido pelo título, o livro é uma doce poesia sobre o amor, o envelhecer e a solidão, ingredientes que temperam o prato de todos nós.  Seu texto gracioso e inteligente suaviza o contexto indigesto, ao mesmo tempo em que ressalta o sabor da vida, suas virtudes e possibilidades.

"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê." - Pág. 109

O protagonista centenário, cronista no jornal de domingo e professor de gramática, surpreende pela elegância e intensidade com que nos serve suas emoções e desassossegos, descobrindo que morrer de amor significa bem mais que uma licença poética. Talvez pelo ridículo ao qual o amor nos expõe, passou a vida relacionando-se com “mulheres descartáveis", percebendo o sentimento e sua humanidade ao pousar os olhos em Delgadina, a ninfeta adormecida, seu presente nu. 

"Foi algo novo pra mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor (...). Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angustias do desejo (...)." - Pág. 35

O gosto desse primor de Márquez pode ser encontrado em uma Oblea com Doce de Amora, o feminino de amor. Delicado, agridoce e saborosamente afetuoso.

Seu ritmo compreendido em Solamente Una Vez, na voz de Augustín Lara, a predileta do protagonista, pois há quem diga que o amor acontece somente uma vez.

19 de setembro de 2012

TODA MAFALDA


Ela é uma garotinha de 6 anos  que vai à escola, brinca com os amigos, dança ao som de Beatles, desafia os pais, questiona e escolhe o que quer comer. Odeia a injustiça, as guerras, o racismo e todas as outras invenções dos adultos, defendendo veementemente os direitos humanos e a paz . Bom, não fossem alguns ingredientes, ela seria uma garotinha como outra qualquer...

 Mafalda, a enfant terrible, veio ao mundo na década de 60 pelas mãos de Quino, cartunista argentino que nos serviu seu humor inteligente, sutil, atemporal e reflexivo por meio dessa adorável contestadora. Na década de 70, com a mesma perspicácia com que a criou, ele a retirou da mesa para não enfadar nosso paladar. Segundo o autor, ele estava tornando-se repetitivo.

Em Toda Mafalda temos compiladas as tirinhas cozidas nesses dez anos de trabalho, nas quais Quino nos apresenta uma consciência infantil, divertida e ácida acerca da família, da sociedade, da política, das relações humanas e da internacionalização, aguçando nosso senso crítico.


A obra também traz informações interessantes sobre o processo de criação de Mafalda e sobre seu autor, além de opiniões como a de Umberto Eco: “Já que nossos filhos vão se tornar, por escolha nossa, outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real.”

Rejeitando o mundo como ele é, com o mesmo rigor com que rejeita um prato de sopa, Mafalda e os demais personagens de Quino nos divertem e nos mostram que a insatisfação com uma realidade desarrazoada não é coisa só para adultos.


Para acompanhar a leitura, Caramelos Artesanais. Assim como nossa Mafalda, é autêntico, azedinho, divertido e gruda na gente. Para ouvir, Twist And ShoutThe Beatles.You know you twist, little girl ...”.


 TEMPERO ESPECIAL
Em Buenos Aires, oportunamente esbarrei em pilhas do livro na Ateneo Grand Splendid, “uma livraria pra chamar de minha”, sediada onde até 1926 funcionou o Teatro Grand Splendid, no Bairro da Recoleta. Passando por lá, visite, circule entre as estantes, suba ao palco para ir até o café, deleite-se e emocione-se com o clima e não deixe de levar Mafalda pra casa! E claro, vá até o Bairro de San Telmo para vê-la.


8 de agosto de 2012

SOBRE LETRAS E PANELAS

O Cemitério de Praga (Umberto Eco)


O tempo passou, o sentimento mudou e a vida recomeçou (mais feliz).

Inspirada pela reforma da cozinha adquiri outros ingredientes e voltei a cozer letras, agora não para preencher o “buraco no estômago”, mas para experimentar novos sabores e transbordar o paladar da alma.

Provando um livro aqui outro ali, escolhi os que me alimentam e iniciei o preparo de pratos diversos, cheia de idéias e fome suficiente para devorar uma estante.

Panelas, digo que voltei!


13 de junho de 2011

A BATALHA DO APOCALIPSE



Passei os últimos dois meses devorando A Batalha do Apocalipse, do estreante Eduardo Spohr, que por sinal começou muito bem.

Misturando ingredientes controversos como história, política, filosofia, religião e uma pitada de romance, o novo Chef conseguiu elaborar um prato encorpado, intenso, merecedor de uma degustação demorada, necessária para a apreciação de suas várias tramas, envoltas em misticismo, magia e batalhas.

“Mas, com o tempo, ele foi entendendo que os eventos espirituais encontram reflexo no plano físico. Foi assim que, pela primeira vez, percebeu os sinais, os indícios que confirmavam os últimos dias da terra. Começou com aquilo que os profetas chamaram de ‘Cavaleiros do Apocalipse’. Não houve cavaleiro de fato, nem entidades montadas que personificassem a previsão. Mas o renegado podia percebê-los nas guerras (...), na fome (...), nas epidemias, (...) e em todo lugar onde a morte arrastava seu manto. Depois a situação mundial se degradou, e isso nada teve a ver com as forças infernais ou celestiais.” – Pág. 41

À mesa fantástica de Spohr encontram-se diferentes castas de anjos, demônios, magos e outras criaturas incríveis, entre eles os humanos, e sua especial essência. Ocupando lugares de honra, o renegado Ablon, a feiticeira Shamira, o Arcanjo Miguel, o misterioso Anjo Negro e o próprio Lúcifer, todos ansiosos pelo despertar do Criador, evento que determinará o dia do Juízo Final, a batalha que decidirá o destino da humanidade.

“Mas isso tudo seria simplesmente mais uma guerra, não fossem os rasgos permanentes no tecido da realidade. Todos, anjos e demônios, sentiram que a membrana estava se desfazendo.” – Pág. 43

Mas até que finde o sétimo dia, e Yahweh acorde do sono que dura desde a criação do universo, acompanhamos Ablon e os demais em suas viagens pelo mundo, dos dias imemoráveis aos atuais, transitando entre o céu e o inferno, descobrindo dimensões singulares que parecem ter envolvido alquimia em seu preparo que, quase em banho-maria, os incorporou de maneira deliciosamente precisa, resultando em uma ficção de dar água na boca.

Com uma linguagem formal e uma narrativa não-linear, o texto é entrecortado por flashbacks que contextualizam, ilustram e esclarecem, auxiliando-nos na digestão de acontecimentos quiméricos, servidos em porções generosas. Outros ingredientes que contribuem para a leitura são o glossário e a linha do tempo, servidos ao final da obra, embora fossem mais interessantes se acompanhados de um mapa.

No prefácio vemos uma comparação entre A Batalha do Apocalipse e a obra de Tolkien, que mostrou-se justa, uma vez que o livro tem o poder de nos transportar para outro mundo, outro tempo, sentenciando-nos à angústia do retorno quando a leitura precisa ser interrompida. Pessoalmente, comparo-a ainda ao Código da Vinci e Anjos e Demônios, de Dan Brown, que juntam homogeneamente ingredientes reais e imaginários, fazendo-nos acreditar no impossível.

Diferentemente da comparação literária, a gastronômica é única, não havendo melhor opção que um Filet de Boeuf Béarnaise: combinação desafiadora, ingredientes cuidadosamente reunidos, habilidade no preparo. Delicioso!

Como acompanhamentos, um bom tinto, fresco e frutado, e Lullaby, com Loreena Mckennitt.

Ah, e não se assuste se ao término da leitura você perceber as oscilações de energia como "rasgos no tecido da realidade"...

16 de maio de 2011

PERFEITOS



A receita usada por Scott Westerfeld em Perfeitos foi a mesma de Feios, mas no segundo prato alguma coisa desandou. Talvez por ele ter usado todo o ingrediente surpresa no prato anterior, ou então por querer manter o fogo alto quando o gás já estava acabando, mas o fato é que em Perfeitos Westerfeld errou a mão.

Tem um ditado que diz que a fome é o melhor tempero, mas nem a curiosidade para saber como seria a nova Tally realçou o sabor do texto, previsível e repetitivo.

No cardápio, a cidade de Nova Perfeição, festas intermináveis, uma Tally perfeita e rebelde, trajes impecáveis, muito champagne, ressacas monumentais, alguns novos amigos, doses moderadas de aventura e um enfumaçado que aparece para trazer à Tally pitadas de sua vida pregressa.

“Tally podia continuar maravilhosa – dona de uma estrutura óssea perfeita e uma pele impecável -, mas seu rosto revelava o caos de seu interior. Agora que tinha pensamentos estranhos aos perfeitos, não se manteria linda o tempo todo. Raiva, medo e ansiedade não combinavam com a perfeição.”Pág. 148

Sempre borbulhante, a Srta. Tally revela seu lado “sou uma heroína sim, e daí”: reflete, fica na dúvida, se angustia, aí chora para em seguida ter a certeza de que pode mudar o mundo. Coisa de mulherzinha mesmo!

“Todas as pessoas eram programadas de acordo com o lugar em que nasciam, confinadas por suas crenças. Mas era preciso ao menos tentar desenvolver uma mentalidade própria. Do contrário, você podia acabar vivendo numa reserva, adorando um bando de deuses falsos.”Pág. 319

Com relação à famosa operação, mais alguns segredos são revelados (isso também estava previsto), motivo pelo qual reencontramos a Dra. Cable e sua divisão, agora com um “biscoitinho da sorte” chamado Shay .

Enfim, Perfeitos não é tão saboroso quanto Feios, mas para não ser indelicada permaneci à mesa, fazendo cara de quem gostou. E se as sobremesas forem  Especiais?

Tá, se a leitura serviu só para matar a curiosidade, que então seja acompanhada por um Cup Noodles, que só faz matar a fome. Combinação adequada que nos faz recordar a vidinha feia e feliz de Tally.

Quer tentar um gostinho a mais? Sirva-se ao som de Plastica. Tão, mas tão parecido com o livro...

10 de maio de 2011

É AGORA...OU NUNCA



Marian Keys me foi indicada duas vezes por pessoas com personalidades bem diferentes, mas parecidíssimas no quesito “pessoas que gostamos de graça”. Assim, aceitei de bom grado quando uma delas me emprestou um volume de É Agora...ou Nunca, que saboreei até a última página.

Com um texto leve, gostoso e engraçado, Marian Keyes aumenta nosso círculo de amigos ao nos apresentar à Tara, Katherine e Fintan, personagens principais cujas histórias estão ali, grudadinhas às nossas, assim como arroz de principiante.

No decorrer da leitura é inevitável nossa aproximação e identificação com os três, ao ponto de querer convidá-los para um jantarzinho íntimo e informal em casa. Se isso fosse possível, tenho certeza de que na noite do encontro o clima estaria agradável, a cozinha acolhedora, e durante a preparação coletiva do tradicional Roast Dinner Londrino, que acompanhado de verduras cozidas e batata assada traduz bem o gosto de intimidade de É Agora...ou Nunca, irreverência e descontração reinariam absolutas no ambiente.

Entre ingredientes, panelas e drinks, a conversa seguiria muito bem humorada, regada a deliciosas gargalhadas e muita diversão, principalmente com as observações de Tara:

“(...) Se você olhar para a foto que está no meu passaporte, que foi tirada a nove anos atrás, vai notar que minha boca estava quase na testa. Em compensação, agora meus olhos estão totalmente caídos, batendo lá no queixo... ´Qual queixo?’, vocês estão pensando... e as minhas têmporas estão quase na altura da minha cintura.”Página 22

Enquanto o assado estivesse no forno, nos acomodaríamos em confortáveis poltronas para aguardar o jantar, satirizando-nos mutuamente, trocando conselhos, redefinindo a vida e curtindo o aconchego da amizade.

“(...) Ele trabalhava na Breen Helmsford há três semanas. Em outros empregos isso queria dizer que ainda estava começando, na área de propaganda, porém, esse período tinha o peso de três anos. (...) era o tempo suficiente para conseguir um cliente importante, ser promovido duas vezes, publicar um artigo na revista Campanha, ser pego na cama com a mulher do diretor geral, perder o cliente importante e ser despedido.”Página 87

Mesa posta, degustaríamos o prato e o papo, alternando freneticamente os assuntos que eventualmente seriam cortados por questionamentos, que nem todos podem fazer, e momentos de silêncio, que só os verdadeiros amigos sabem dividir.

“(...) Sua época com Alasdair parecia uma campina verdejante banhada por um sol glorioso, enquanto o lugar onde estava agora parecia envolto por uma nuvem negra. Tudo bem que ele dera no pé e se casara com a primeira vadia que apareceu, mas eles tinham curtido um paraíso, não tinham?” - Página 358

Alguém se levantaria, iria até a cozinha e serviria a sobremesa, anunciando assim o término do jantar, o que não significaria, entretanto, o fim de nada. As despedidas aconteceriam, os abraços seriam trocados, a noite findaria e permaneceria no ar a certeza de que a amizade é um tempero essencial à vida.

“(...) O Ravi que é três anos mais novo que eu? O Ravi que fica acordado a noite inteira jogando videogame? O Ravi que pensou que Duro de Matar era um documentário? Esse Ravi? Ele está muito bem.” - Página 501

Mesmo depois que a última luz se apagasse na residência, os vizinhos ainda poderiam escutar as notas de In My Life, The Beatles.

Ah, e cla-ro que o próximo encontro ficaria agendado, com a certeza de que o cardápio seria à base de Melancia.

23 de dezembro de 2010

MORTO ATÉ O ANOITECER | The Southern Vampire Mysteries



Recentemente iniciei a leitura de Morto Até o Anoitecer, o primeiro livro da série The Southern Vampire Mysteries, da americana Charlaine Harris, e que deu origem ao premiado seriado True Blood. Bom, iniciei e não terminei, já que acompanho a série assiduamente, e dessa vez preferi as imagens.

Apesar de uma abordagem livre das histórias, a série assemelha-se muito aos livros ao tratar a co-existência de vampiros e humanos em Bon Temps, cidade fictícia de Louisiana, o que foi possível a partir da invenção do True Blood, sangue sintético desenvolvido pelos japoneses. Não mais se alimentando de humanos, os vampiros finalmente puderam sair da clandestinidade, tornando-se cidadãos comuns, ou quase.

Focando a família Stackhouse, The Southern Vampire Mysteries, ou True Blood, não pode ser classificado em um único gênero, já que engloba mistério, romance, ficção científica, aventura e humor, tudo isso vivido por seres humanos, vampiros, telepatas, metamorfos, lobisomens, mênades e várias outras criaturas que vão surgindo no decorrer do texto, criaturas essas que na série são interpretadas por atores, centrais e coadjuvantes, que convencem.

“Esperei pelo vampiro durante anos, até que, um dia, ele entrou no bar. Desde que os vampiros começaram a ‘sair do caixão’ (...) quatro anos atrás, eu tinha a esperança de que alguns deles aparecessem em Bom Temps. Tínhamos todas as minorias em nossa cidadezinha – por que não teríamos a mais nova, os mortos-vivos agora legalmente reconhecidos? Mas o norte caipira da Louisiana, na verdade, não era muito sedutor para vampiros, ao que parecia (...).”Página 7

“O vampiro estava faminto. Eu sempre fora informada de que o sangue sintético que os japoneses tinham criado mantinha os vampiros satisfatoriamente nutridos, mas não satisfazia realmente a sua fome, motivo pelo qual aconteciam uns ‘Incidentes Lamentáveis’ de vez em quando.”Página 11

Cada temporada da série foi baseada na temática de um dos livros, compondo uma obra singular, engraçada e sexy, que expressa situações capazes de corromper o homem.

Para saborear, Pipoca Amanteigada: tão compulsiva e frenética quanto a série. Para ouvir, Bones, com Little Big Town. Diz tudo!

12 de novembro de 2010

O PÁSSARO RARO



O Pássaro Raro, de Jostein Gaarder, é um prato modesto, gostoso e bem humorado, que dá certo trabalho para ser degustado, assim como um bom e tradicional Siri. É custoso, mas enfrentamos sua casquinha filosófica para saborearmos um conteúdo diferente e divertido.

A “casquinha de Gaarder”, servida nos 10 contos que compõem a obra, refere-se à teimosia do ser humano em permanecer escondido sob uma carcaça, mascarando sua real essência, às vezes se enterrando na tentativa de evitar circunstâncias que angustiam, paralisam e levam a questionamentos essenciais como “quem sou”, “de onde vim”, “o que faço”, “para onde vou”...

O gosto dos contos é potencializado por entradas específicas que antecipam ou complementam a absorção de cada um deles, mas que também podem servir de digestivos filosóficos para o ingrediente que está por vir.

“E os outros, será que as outras pessoas à sua volta realmente tinham conhecimento de que existiam? Será que elas estavam mais atentas do que um rebanho de vacas no pasto? Bem pouco, se tanto. Quem não chegou ao limiar da morte também não vivenciou a vida de verdade. A vida era algo que se pensava em enterros. Ou no máximo junto ao leito de um doente.”O Diagnóstico, pág. 42

“Chamo sua atenção para algo que, segundo meus critérios, deveria abalá-lo nas suas mais profundas convicções, mas ele apenas abana a cabeça e prossegue apressadamente. Em vez de perceber que o mundo é fantástico, ele acha que estou fantasiando. E não entende absolutamente nada. Como ele precisa de um mundo previsível, ele me tacha de louco. Para que ele próprio não enlouqueça, convence a si mesmo de que alguma coisa está errada comigo. Na Antiguidade, cortavam as cabeças dos mensageiros de más notícias...”- O Crítico, pág. 119

Esse livro é um ótimo aperitivo para trabalhar questões filosóficas em sala de aula, já que os alunos poderão dividir a mesa de forma lúdica com Nietzsche, Hegel, Zaratustra e Buda, alguns dos convivas trazidos por Gaarder para essa refeição.

Para acompanhar o Pássaro ninguém melhor que o Moska, e sua interpretação de A Idade do Céu.

11 de novembro de 2010

SÓLIDOS GOZOSOS & SOLIDÕES GEOMÉTRICAS



A massa de Sólidos Gozosos & Solidões Geométricas é uma só, o olhar. Entretanto, Nelson de Oliveira a recheou com saborosas perspectivas de papéis desempenhados e relacionamentos estabelecidos, fatiando-a em 8 contos.

A delicadeza e o sabor do recheio dessa Pizza Focal surpreende-nos pelo tempero bem-humorado, o que torna singulares seus pedaços e personagens que, pelo assunto, poderiam ser insossos: a mãe que compreende o mundo pelos olhos da filha, o filho que vê através da fantasia para fugir da solidão, os amigos que buscam enxergar para além da vizinha, o olhar maravilhado dos primos pela iniciação sexual, a visão de relacionamentos efêmeros, os olhos vistos através de máscaras, o olho invejoso de quem almeja o paraíso e a percepção lunática.

“Segundo o último pedido de resgate, em duas horas eu teria que estar na Caverna do Dragão, no Playcenter, com um milhão de dólares, se quisesse ver meus irmãos vivos. Os papeletes anteriores diziam a mesma coisa, apenas o nome dos seqüestradores era diferente. Ora era o dos seres radioativos (disfarçados de jogadores de basquete), ora era o do hermafrodita castrado, e assim por diante. O que demonstra a pouca originalidade de Mefisto. E certa parvoíce, também, pois a falta de clareza nas mensagens poderia botar tudo a perder. (...) Perguntei e esperei. Os mortos, apesar da minha tentativa de comunicação, não fizeram com que o vento soprasse diferente. Uma voz do além não me sussurrou, como nos gibis e no cinema, palavras de sabedoria. Eu me achava só.” - Gotham City, pág. 36

“O deserto, meu amigo, não é só a confluência de todos os vazios: o da alma e o da vida. É também o único local onde Deus grita com os homens. Nas casas e nos templos Ele apenas sussurra. Chega a ser irritante essa insistência, por parte do Todo-Poderoso, em não erguer a voz nos ambientes fechados. Medo do quê, meu Deus? De explodir tímpanos e paredes? De fazer tremer a Asia e a África, a terra plana e a esférica? Em Sodoma e Gomorra não teve receio algum, por que teria agora?”O Dia dos Prodígios, pág. 106

A fôrma utilizada por Nelson de Oliveira para assar seu prato resultou em finais surpreendentes e inusitados, salpicados ao longo do texto por sonhos, lembranças, jogos e narrativas que reforçam nosso apetite pelo enredo imaginativo.

Mesa posta, não se importe se avistar uma Moska no prato. Ela pode embalar sua refeição com Seu Olhar.

15 de outubro de 2010

O CÓDIGO DA VINCI



Ao levar o Código Da Vinci para a mesa espere por uma refeição, no mínimo, apimentada, preparada por Dan Brown de forma tão ardilosa que podemos facilmente renunciar ao cardápio da fantasia para fincarmos nosso garfo em prato histórico.

Instigante e polêmico, O Código Da Vinci faz arder nossa imaginação ao tratar o suposto relacionamento entre Jesus Cristo e Maria Madalena, o qual teria originado uma linhagem de descendentes que prossegue até os dias atuais.

“Evidências” deste relacionamento, que envolve documentos e sociedades secretas, relíquias sagradas e nomes como Issac Newton e Walt Disney, poderiam ser encontradas nas obras de Leonardo Da Vinci, conhecedor de segredos seculares e da conspiração do cristianismo.

Os principais personagens da obra de Brown são Robert Langdon, professor de simbologia de Harvard (cuja cátedra não existe), e Sophie Neveu, uma criptóloga que está intimamente ligada aos mistérios do Santo Graal. Juntos, Langdon e Sophie (adoro este nome) irão desvendar os dogmas da doutrina de Cristo, arrastando-nos com eles pela Europa.

“Uma vez que você abra seus olhos para o Santo Graal (...), vai vê-lo em toda parte. Pinturas. Música. Livros. Até nos desenhos animados, parques temáticos e filmes populares. Langdon ergueu seu relógio de Mickey Mouse e contou-lhe que Walt Disney havia dedicado sua vida inteira a transmitir a mensagem do Graal às futuras gerações. Durante toda a vida, Disney foi aclamado como ‘o Leonardo da Vinci moderno’. Ambos os homens estavam gerações adiante de seu tempo, eram artistas de um talento fora do normal, membros de sociedades secretas e, acima de tudo, adoravam pregar uma peça. Como Leonardo, Walt Disney adorava infundir mensagens ocultas e simbolismo em sua arte. (...) Não foi à toa que Disney recontou histórias como Cinderela, A Bela Adormecida e Branca de Neve – todas tratando do encarceramento do sagrado feminino. Nem foi necessário um pano de fundo de simbolismo para entender que Branca de Neve – uma princesa que foi rebaixada após comer uma maçã envenenada – era uma alusão clara à queda de Eva no Jardim do Éden.” Página 239

“Quando não existe resposta correta para uma pergunta, só há uma resposta honesta. A área cinzenta entre o sim e o não. O silêncio.”Página 368

Com muito suspense e uma convicção que indignou milhões de cristãos em todo o planeta, O Código Da Vinci traz à mesa uma história realmente intrigante, que vale a pena por se tratar de um bom romance de aventura, e não por questionar a veracidade de Cristo e sua divindade.

Saborosa e quente, assim como Frango ao Curry, a edição especial ilustrada é uma excelente opção para os que valorizam, também, o sentido da visão.

Ao som de canto gregoriano fica ainda mais convincente.

11 de outubro de 2010

MISTO-QUENTE



Depois de me servir de Charles Bukowski, em Misto-Quente, percebi que ele não é para qualquer um. Não é para mim!

Para comer com esse “velho safado”, como é conhecido, é preciso ter um estômago que agüente a companhia de um bêbado, sujo e nojento, que cospe em nossa cara histórias autobiográficas que fazem Nelson Rodrigues parecer contos de fadas.

Usando o alter-ego Henry Chinaski, e uma escrita sincera e extremista, Bukowski narra em Misto-Quente detalhes de sua vida que explicam a pessoa que ele se tornou, detalhes que no início me fizeram rir e acreditar, ingenuamente, que seu cardápio não era tão indigesto como diziam. Doce engano...

“Escutei meu pai entrar. Ele sempre batia a porta, caminhava pesadamente e falava aos brados. Ele estava em casa. Depois de alguns instantes, a porta do quarto foi aberta. Tinha 1,89 de altura, um homem grande. Tudo mais desapareceu: a cadeira em que eu estava sentado, o papel da parede, as próprias paredes, inclusive meus pensamentos. Ele era como a escuridão encobrindo o sol, a violência que ele exalava aniquilava por completo qualquer outra coisa. Ele era todo orelhas, nariz, boca, eu não podia olhar em seus olhos, havia apenas seu rosto vermelho e enfurecido.”Página 42

“Levantei-me e deixei a sala. Fui para casa. Então era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil para mim.”
Página 92

“Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.”
Página 105

Como não gosto de “fazer desfeita” forcei-me a comer, mas o sabor era tão chulo que, num dado instante, regurgitei. Foi aí que vi o quanto de pudor mora em mim.

O gosto de Henry Chinaski, um sujeitinho que parece ter nascido por castigo, não me agradou. E mesmo sabendo que suas falas representam mais que palavrões, deixei-o sozinho à mesa.

Saí às pressas, ao som de Bad Things, Jace Everett.

8 de outubro de 2010

A DISCIPLINA DO AMOR



Dá gosto saborear as iguarias que Lygia Fagundes Telles nos oferece nessa obra, irresistivelmente bem temperada com sua delicadeza, elegância e intensidade.

Composto por fragmentos do cotidiano, observações de viagens, reflexões filosóficas e apontamentos psicanalíticos, A Disciplina do Amor leva-nos a acreditar que saboreamos o próprio diário da autora, com relatos que, implicitamente, cozem um verdadeiro banquete de amor e vida.

“(...) que duro o julgamento desse próximo, medida de todas as coisas. Tão atento o nosso próximo. Atento e desatento: condena, absolve, aconselha, desaconselha e depois vai tomar chope, esquece. O objeto do julgamento – o réu – levando tudo tão a sério, fazendo e desfazendo. E o outro, como no poema, tirando ouro do nariz.”Senso de Humor, pág. 19

“(...) Tão difícil a vida e seu ofício. E ninguém ao lado para receber a totalidade (ou parte) do fardo. Os analistas, caríssimos, e na maioria, um lixo: um lixo Freud considerava a totalidade dos seres humanos, isso nos últimos anos de sua vida sem muita ilusão. Ele não conheceu seus discípulos. E por acaso é com o analista que se comenta o filme na saída do cinema? O livro. O sabor do vinho, esse gosto meio frisante, hen?”29 de Janeiro, pág. 24

“(...) ninguém morre. É que os mortos são discretos. Tão silenciosos. Os braços de éter, a voz de aragem. Habituada ao mundo visível, você se desespera com a aparente ausência, quer tocá-la e não atinge.”Fragmentos da Carta à Mãe em Prantos, pág. 50

“Para a Sibéria deveriam ser mandados os narcisos em delírio num pequeno estágio de humildade. Os ventos passam, os homens passam e ninguém sabe.”A Mulher de Omsk, pág. 55

Entre lembranças, fantasias, contos e inquietudes, desfrutamos à indispensável mesa de Lygia de seu real e imaginário, que aconchega, conduzindo-nos à introspecção, assim como o Caldo de Frango, servido quente, em noite solitária, ao som da clássica Canon, de Pachelbel.

30 de setembro de 2010

FEIOS



Como seria o mundo se todos nós, na adolescência, o ápice do período da aceitação, fôssemos submetidos a uma cirurgia para nos tornarmos belos e perfeitos? E se, a partir daí, nossa vida fosse repleta de diversão, festas e muito glamour?

Esse é o cardápio de Feios, que com um ritmo frenético e juvenil vai página a página servindo-nos a história de Tally Youngblood, uma jovenzinha que vive ansiosa à espera do momento em que finalmente se tornará perfeita com a cirurgia, presente-obrigatório do governo e passaporte que lhe possibilitará viver em uma das torres iluminadas e borbulhantes da cidade de Nova Perfeição, tendo como única preocupação divertir-se com o luxo e a badalação que só a beleza pode proporcionar.

Mas como nada é simples na vida de um adolescente, também nos servimos dos conflitos internos da protagonista.

Tratando questões como diversidade, personalidade, individualidade e estética, tendo a beleza como parâmetro definitivo, Scott Westerfeld “corrige” a “injusta” convivência entre belos e feios transformando todos em perfeitos, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o que está do outro lado do espelho, e que não é nada bonito: o preço a ser pago para enquadrar-se aos padrões.

“Claro. Até parece que as coisas eram maravilhosas quando todo mundo era feio. (...) Todo mundo julgava todo mundo pela aparência. As pessoas mais altas conseguiam empregos melhores, e o povo votava em certos políticos só porque eles não eram tão feios quanto a maioria. (...) E as pessoas se matavam por coisas como uma cor de pele diferente. (...) Então, qual é o problema de as pessoas serem mais parecidas agora? É o único jeito de tornar as pessoas iguais.”Página 47

“Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem ‘quem é ela?’ e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.”
Página 94

“(...) E agora todos são felizes, porque todos são iguais. Todos são perfeitos. (...) Talvez as guerras e todas as outras coisas tenham acabado simplesmente porque não há mais controvérsias, discordâncias ou pessoas reivindicando mudanças. Apenas massas de perfeitos sorridentes. E algumas outras pessoas que controlam tudo.”
Página 260

O gosto da obra futurista e escapista de Westerfeld assemelha-se muito ao paladar de Amendoins Japoneses, que ingeridos despretensiosamente levam-nos a acabar com uma porção e imediatamente pedir a próxima, nesse caso, os próximos da série: Perfeitos, Especiais e Extras.

Para embalar a leitura de Feios, que figurou na lista de Best Sellers do The New Yourk Times, Vanity, de Lady Gaga, porque com certeza é "isso" que toca nas torres de Nova Perfeição.

21 de setembro de 2010

EU E OUTRAS POESIAS



Eu e Outras Poesias é o único livro publicado de Augusto dos Anjos, autor, sem precedentes, de mazelas, angústias, humilhações e toda espécie de desgraça que se possa imaginar.

Seu texto não cozido serve-nos uma perspectiva indigesta de mundo e relacionamentos, capaz de nausear estômagos sensíveis e gerar repulsa mesmo àqueles que apreciam pratos exóticos.

Poeticamente agressivo, literariamente orgânico, Eu e Outras Poesias expressa as verdades nuas e cruas de um autor melancólico e pessimista, deixando na boca o gosto bruto de um prato com ínfimo preparo, tal qual o Carpaccio Tradicional.

“(...)
A Consciência Humana é este Morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente no quarto!”O Morcego

“(...)
Toma uma fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mal vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”Versos Íntimos

Pela primeira vez não resisto e coloco minha colher no prato, salpicando-o com otimismo discreto de Meditação, na voz de João Gilberto, porque realmente acredito que no fim tudo dá certo.

31 de agosto de 2010

CAFÉ E BAR PONTO CHIC



Levei esse exemplar para casa acreditando que degustaria situações tipicamente cariocas, entretanto deparei-me com casos que poderiam ter acontecido em qualquer lugar do planeta, o que me trouxe certo dissabor. Tá certo que “o ser é humano” em qualquer lugar do mundo, mas quando pontuam que vão falar do “ser carioca” esperamos que isso seja feito de forma intensa, o que não aconteceu em Café e Bar Ponto Chic.

Francisco Paula Freitas convida-nos à um passeio pelo subúrbio carioca, propondo-nos histórias de humor, paixão e tragédias que temperam a cidade maravilhosa, mas sua narrativa intimista acaba nos conduzindo para a cozinha de sua casa, onde ele nos serve histórias atemporais de um mundo urbano, brasileiro, não necessariamente fluminense.

Nos vinte e sete contos de Café e Bar Ponto Chic provamos críticas sociais descritas de tal forma que para encontrarmos os meninos do Rio precisamos procurar muito, pois eles se encontram sob a ótica quase autobiográfica do autor, assim como a Carne Seca do Escondidinho sob o Purê de Mandica.

“O bom, doutor, é que que moro no Rio de Janeiro, nesta cidade maravilhosa, e o senhor sabe como é, aqui é verão o ano inteiro. Eta clima maravilhoso, isso é que é lugar! Eu moro em Ramos, o senhor conhece? Lá tem tudo, é muito bom. Vou lhe contar uma coisa: quando eu era pobre, chegava em casa cansado, suado e na mesma hora, não dava nem boa noite, tirava a camisa para a mulher lavar e pendurar logo para secar. Era a única, a que eu ia vestir no dia seguinte para, de novo, tentar arranjar algum dinheiro e garantir a sobrevivência. (...) Espantado com a inesperada loquaz sinceridade, mas decepcionado com a história, me perguntei o que continuava a fazer ali. Já o tinha visto, morrera a curiosidade. Pensei em ir-me embora. Consultei o relógio e vi que perdera a barca. A estranha bebida não era de todo má. Ficaria mais um pouco.”O Bêbado da Lanchonete, pág. 121

“Doutor Robalinho, antigo psiquiatra do Méier, recomendou a um cliente que resolvesse seu problema de angústia existencial – usava-se isso tempos atrás – com passeios à beira-mar e, já que bebia, bebesse champanhe. Quando o paciente disse não poder ir à Zona Sul para passeios nem ter dinheiro para o champanhe, Doutor Robalinho lamentou, disse que mais não podia fazer e mandou que entrasse outro. Tempos depois o cliente voltou. Curado, agradeceu ao médico e explicou: tudo bem, doutor: Praia de Ramos e Cardozo Gouveia. De litro.”Uma História de Amor, pág. 230

“Os cariocas tem um privilégio, um tipo de felicidade peculiar, qual seja o que permite ter sem possuir. Assim como um artista traz dentro de si a obra de arte, a música, a pintura, a escultura, gravadas em seu acervo mental, podendo delas dispor a hora que desejar, quem não a tem desse modo precisa tê-la na estante, na parede e no salão. Ao homem comum basta pouco. Vive bem, com o necessário. Futebol, música, praia e cerveja compõem a base da sua alegria. No dicionário do carioca, a cooperação, o riso, a alegria valem mais que a competição. Porém, cuidado. Nada de idealizar muito a cidade. Ela é como todas. Aqui se ama, odeia, mata e se vive como em qualquer outra. Incomum, rara mesmo, é a sua beleza. Se bobear, desfalece.”Uma História de Amor, pág. 233

Se o Escondidinho de Carne Seca promete uma surpresa a cada garfada, Francisco Paula Freitas surpreende-nos ao nos servir um prato que não era o escolhido do cardápio, mas que vale pela sensibilidade e inspiração.

Bom, já que o livro não é tão carioca, experimente degustá-lo ouvindo Tim Maia, o carioca da gema.


19 de agosto de 2010

O DIABO VESTE PRADA



Pode parecer, mas O Diabo Veste Prada não possui tempero exclusivamente fashion, servindo muito bem à todos que querem se divertir com um texto très chic.

Tendo como cenário o universo da moda internacional, comandado por jornalistas e estilistas, o livro trata dos sabores e dissabores de se estar nesse meio, no qual o que você veste determina quem você é, além de ser um prato cheio para discussões acerca do mundo corporativo.

As principais figuras deste badalado evento que é O Diabo Veste Prada são Miranda Priestly, uma odiada, impetuosa e obcecada editora chefe de uma grande revista de moda, e Andrea Sachs, uma jornalista recém formada e brigada com o guarda-roupas que vai trabalhar como sua assistente, “o emprego que milhões de garotas matariam para ter.”

Entre figurinos exclusivos criados por estilistas famosos, usados por quem pode sustentear, editores sedutores e fashionistas ambiciosos, Lauren Weisberger traz no livro uma fatia de sua própria história, período em que trabalhou na Vogue como assistente de uma editora não menos exigente que Miranda.

“’(...) Desça e pegue seus jornais e deixe-os como lhe ensinei. Quando acabar, limpe sua mesa e deixe um copo de Pellegrino no lado esquerdo, com gelo e limão. E verifique se não falta nada em seu banheiro, o.k.? Vá! Ela já está no carro, de modo que deve chegar em menos de dez minutos, dependendo do trânsito’. Quando saí correndo da sala, ouvi Emily discando, sucessivamente, ramais de quatro dígitos e quase gritando: ‘Ela está a caminho. Avise todo mundo.’ Só precisei de três segundos para percorrer o corredor sinuoso e atravessar o departamento de moda, mas já escutei gritos de pânico: ‘Emily disse que ela está a caminho’ e ‘Miranda está chegando!’. (...) Assistentes se puseram a arrumar as roupas freneticamente nas prateleiras das paredes, e editoras dispararam para suas salas, e vi uma mudando seus sapatos de salto baixo para um de saltos finos de dez centímetros, enquanto outra passava batom, rímel e ajustava a alça do sutiã sem nem diminuir a velocidade. (...) tinha dez minutos para me preparar para o primeiro encontro com Miranda, como a sua atual assistente, e não ia estragá-lo.”Pag. 117


Divirta-se com o livro ao som de Labels or Love, Fergie.